A pesquisa do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis é tão revolucionária que, em poucos anos, poderá fazer com que a humanidade aprenda a usar expressões nunca antes concebíveis. Coisas como “ex-paraplégico”, ou “ex-tetraplégico”. Poderemos dizer que alguém “teve” Alzheimer ou Parkinson, mas que agora está curado. Vai ser possível afirmar que alguém perdeu um membro (uma perna, um braço, uma mão), mas que, felizmente, conseguiu recuperar essa parte do corpo...
E o estranho é que todas essas coisas, por mais mirabolantes que possam parecer à primeira vista, podem estar mais próximas de acontecer do que se imagina. Uma das ambiciosas metas do médico, o projeto “Andar de Novo” tem data para se concretizar. Se for “humanamente possível” terminar tudo a tempo, diz Nicolelis, na tarde da abertura da Copa do Mundo de 2014, marcada para o Brasil, dois adolescentes “que até aquele dia eram quadriplégicos” entrarão em campo e darão o pontapé inicial da primeira partida do Mundial.
“Não sei se vamos cumprir o prazo. Mas estamos tentando. E acho que é importante ter datas para apresentar resultados em ciência. Se não, ficamos divagando muito”, diz ele. Embora diga que também goste de fazer seus devaneios, Nicolelis só está perto de concluir alguns de seus projetos mais impressionantes porque se dedica em tempo integral ao trabalho. Comanda um laboratório na Universidade de Duke, nos Estados Unidos. Outro em Lausanne, na Suíça. E, agora, está montando um centro de pesquisa de ponta no Nordeste brasileiro.
Mas, para entender tudo sobre Nicolelis, é necessário ir por partes. Primeiro, é preciso saber como um estudante de Medicina da USP chegou a bolar todas essas ideias sobre o cérebro humano. Vamos a isso.
Distribucionista
Nicolelis conta que todo o seu trabalho de pesquisa começou num embate entre duas correntes de neurocientistas. De um lado, estava o grupo majoritário, dos “localizacionistas”. Os cientistas que apoiam essa teoria acreditam na extrema especialização de células cerebrais. Num ponto absurdo, chegaram a encontrar coisas como “o neurônio da vovó”, que dispararia cargas elétricas mais rápido quando o indivíduo via uma foto da própria avó.
O brasileiro queria mostrar que na verdade “um neurônio sozinho não faz verão”. E que são grandes “populações” neuronais que juntas criam os comandos dados pelo cérebro. Para isso, começou a fazer pesquisas com o cérebro de primatas. E foram essas pesquisas que o levaram a seu campo de trabalho atual: a interação máquina-cérebro.
Para provar seu ponto, Nicolelis colocou transmissores em neurônios dentro da cabeça de macacos. Passou a registrar seu funcionamento em número cada vez maior, e a ver como eles reagiam em diversas situações. Uma coisa levou à outra, e logo, na pesquisa do pós-doutorado, surgiu uma ideia. Seria possível, dizia Nicolelis, fazer uma máquina obedecer aos comandos do cérebro sem que houvesse qualquer contração muscular envolvida. Ou seja: o que o macaco “pensasse” seria convertido em linguagem de computador. E o comando, transmitido para um robô.
Aurora
A primeira grande vitória do brasileiro ocorreu em 2001. E a personagem central dessa conquista é a macaca Aurora. Sentada em uma cadeira, ela foi ensinada a jogar videogame. Na tela, um alvo aparecia em lugares aleatórios. O objetivo dela era fazer o cursor cruzar o alvo durante o curto tempo em que ele ficava visível. Se conseguisse, o equipamento derrubava umas gotas de suco de laranja em sua boca.
O que Aurora não tinha como saber é que seu cérebro estava sendo monitorado. E seu “pensamento” estava sendo transmitido para um computador. Em linguagem digital, o computador se comunicava com um braço robótico que, na sala ao lado, repetia os mesmos movimentos, em tempo real.
Até que um dia, Aurora foi surpreendida pela equipe de neurocientistas. O joystick que ela usava para jogar sumiu. A esperança dos cientistas era de que ela entendesse o que queriam dela: que percebesse que poderia apenas “imaginar” os movimentos a serem feitos com o controle. E mesmo assim, o cursor na tela se moveria. Por quê? Porque o joystick estava na mão robótica na sala ao lado, lendo os pensamentos dela.
E, para surpresa de todos, Aurora entendeu o jogo. E o cursor se moveu na tela. E ela voltou a receber o merecido suco de laranja. A partir daquele momento, Nicolelis tinha uma certeza: era possível criar novas partes de um corpo. Fazer com que máquinas respondessem apenas a nossos pensamentos. Que máquinas poderiam ser essas? Por exemplo, uma mão mecânica implantada num braço, depois de uma amputação. Outro exemplo? Uma “armadura” mecânica colocada em volta do corpo de um paraplégico.
O cérebro de Aurora, diz Nicolelis, foi libertado. Agora, é a hora de libertar os demais.
Publicado em Gazeta do Povo dia 03/09/2011.
Blog destinado a publicação experiências pedagógicas de um professor de História e de trabalhos realizados pelos seus alunos.
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domingo, 4 de setembro de 2011
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
O Planeta do Macacos
“O homem é uma praga!”
Houve uma época para o cinema americano em que trabalhar com ficções-científicas não se tratava apenas de inventar histórias grandiosas ou jogar na tela efeitos especiais impactantes, embora isso também pudesse ocorrer. A origem desse gênero na literatura, por exemplo, visava algo muito maior do que apenas atrair um público sedento por teorias conspiratórias. A grande sacada na hora de criar uma trama em volta desse estilo era o poder ilimitado que o autor adquiria em um mundo onde ele mesmo podia inventar as regras. Afinal, gêneros como ficção-científica e fantasia permitem ao criador fazer o que bem entender sem se preocupar com a lógica da realidade e, mais importante de tudo, transmitir o que bem entender. No caso de diretores e roteiristas, ter esse poder era essencial na hora conseguir driblar a censura e expor em suas obras uma mensagem de impacto não apenas visual. Ciente disso, Franklin J. Schaffner e seu famoso Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, 1968) vieram não apenas para abalar o cinema no sentido puramente comercial, mas também para usar sua arte em prol de algo muito maior – criticar ferozmente o ser humano e a guerra.
Rodado em 1968 em plena Guerra Fria, Planeta dos Macacos tinha um objetivo bem claro para seus autores, mas não para o público em geral. Adaptado da obra homônima do francês Pierre Boulle, o roteiro foi quase que inteiramente montado a partir de idéias bem pesadas e um tanto fora de foco para a proposta do cinema que começava a emergir no fim da década de 1960. Os efeitos visuais, a ação e a inventividade ganhavam força das idéias propagadas pelas corridas armamentistas e espaciais, e agora para um filme fazer sucesso comercial era inteiramente necessário o uso desses recursos. Foi então que a ficção-científica ganhou um espaço diferente e maior entre as produções americanas. Saindo do terreno das premissas trash de monstros descontrolados e explosões nucleares (influências da Segunda Guerra), o gênero passava a se enveredar pelo espaço sideral e pelas guerras nas estrelas. Tudo era ainda muito novo e empolgante, e Planeta dos Macacos deu o tiro de largada para as idéias estourarem, influenciando uma onda de novos cineastas que viriam a usar e abusar delas (entre eles um tal de George Lucas).
O que ninguém conseguiu perceber em um primeiro momento foi a intenção por trás de tudo isso. Sim, havia muito efeito especial para agradar o público, mas sua força se encontrava em outros atributos. Não perdendo a oportunidade de simplesmente detonar a imagem de herói do governo americano, Schaffner alcançou um sucesso comercial enorme através de uma obra que ia contra tudo aquilo que era pregado pela política estadunidense. Debaixo do nariz de sua própria nação, ele criticava não apenas as guerras, mas também a irracionalidade que havia por trás delas no ser humano. Em um filme intitulado de Planeta dos Macacos, é a raça humana que ganha um destaque maior, e não à toa.
Mas o que há de tão feroz por trás de uma aparentemente comum diversão? Logo na sinopse podemos descobrir um primeiro indício. Tudo gira em torno de um grupo de astronautas que acaba aterrissando em um planeta desconhecido, no ano de 3978, habitado por macacos inteligentes que escravizam e fazem experimentos com seres da raça humana. Dos três tripulantes, apenas um consegue escapar das garras destes símios e agora tem a difícil missão de descobrir que lugar é aquele exatamente e que segredo está por trás de tudo aquilo.
Para começar, temos uma situação no mínimo estranha. Os animais sendo retratados como civilizados, enquanto o homem é mostrado como um bicho irracional a ser analisado é algo que nos faz pensar. Depois, temos a reação dos personagens terráqueos diante de uma tão bem estruturada sociedade, regida por símios de inteligência muito acima do comum. Antes da aterrissagem, o protagonista Taylor (Charlton Heston) já se mostra preocupado com sua própria raça – “acredito que em algum lugar do universo deve haver algo melhor que o homem”, diz ele – e a princípio fica pasmo com a disciplina e civilidade que encontra em novas terras. Que surpresa é quando percebe ser uma ameaça para aqueles primatas, que aparentemente escondem um segredo muito importante que pode ser desvendado por ele.
Os momentos de tensão são constantes, o que talvez realce a seriedade que se encontra na mensagem latente nas entrelinhas. Os ângulos pelos quais Schaffner posiciona sua câmera são tão assimétricos que acabam contribuindo para estabelecer uma sensação de perdição e caos no espectador, facilitando assim uma empatia com o protagonista igualmente confuso. Aos poucos o diretor vai endireitando sua câmera, na mesma medida que as coisas vão se esclarecendo, e tudo vai ficando cada vez mais difícil ainda de aceitar. Seguindo essa técnica narrativa curiosa, é impossível não ficar estarrecido diante da revelação bombástica das cenas finais, mesmo que agora a tensão tenha se esvaído e a tela esteja em correta posição. Ou seja, o texto e a imagem vão se revezando na função de nos prender em uma trama que vai ficando mais complicada conforme é desvendada.
Fãs de carteirinha, filas quilométricas, convenções anuais e reapresentações constantes em mostras de cinema são apenas alguns dos resultados do sucesso desta produção. Foi um dos pioneiros a alcançar tamanho frenesi e serviu de inspiração para inúmeras adaptações para televisão, continuações e refilmagens. Nenhuma delas foi tão incisiva e significativa para o cenário cinematográfico e até mundial como foi a obra original. Além de ter servido também como precursor do nascimento do cinema contemporâneo americano, continua até hoje servindo de referência no gênero e mantém em torno de si uma aura de intocável que poucos conseguem construir.
Planeta dos Macacos, apesar de nos propor entretenimento, é um tipo de cinema que alça vôos maiores. Ele assume a função de denunciar, de expor, de cutucar e de refletir. Mais do que corriqueira diversão, sua mensagem é tão pertinente que o tempo não foi capaz de torná-la obsoleta. Talvez seja datado em seu visual, mas seu texto envelheceu sem perder o valor e pode muito bem ser aplicado ao mesmo governo americano, ao mesmo ser humano e à mesma irracionalidade. Se for verdade que a passagem dos anos é a maior prova de qualidade de uma ficção-científica, então estamos diante de um grande exemplar do gênero.
Resenha extraída do site:
Cineplayers
Trailer do novo filme:
Houve uma época para o cinema americano em que trabalhar com ficções-científicas não se tratava apenas de inventar histórias grandiosas ou jogar na tela efeitos especiais impactantes, embora isso também pudesse ocorrer. A origem desse gênero na literatura, por exemplo, visava algo muito maior do que apenas atrair um público sedento por teorias conspiratórias. A grande sacada na hora de criar uma trama em volta desse estilo era o poder ilimitado que o autor adquiria em um mundo onde ele mesmo podia inventar as regras. Afinal, gêneros como ficção-científica e fantasia permitem ao criador fazer o que bem entender sem se preocupar com a lógica da realidade e, mais importante de tudo, transmitir o que bem entender. No caso de diretores e roteiristas, ter esse poder era essencial na hora conseguir driblar a censura e expor em suas obras uma mensagem de impacto não apenas visual. Ciente disso, Franklin J. Schaffner e seu famoso Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, 1968) vieram não apenas para abalar o cinema no sentido puramente comercial, mas também para usar sua arte em prol de algo muito maior – criticar ferozmente o ser humano e a guerra.
Rodado em 1968 em plena Guerra Fria, Planeta dos Macacos tinha um objetivo bem claro para seus autores, mas não para o público em geral. Adaptado da obra homônima do francês Pierre Boulle, o roteiro foi quase que inteiramente montado a partir de idéias bem pesadas e um tanto fora de foco para a proposta do cinema que começava a emergir no fim da década de 1960. Os efeitos visuais, a ação e a inventividade ganhavam força das idéias propagadas pelas corridas armamentistas e espaciais, e agora para um filme fazer sucesso comercial era inteiramente necessário o uso desses recursos. Foi então que a ficção-científica ganhou um espaço diferente e maior entre as produções americanas. Saindo do terreno das premissas trash de monstros descontrolados e explosões nucleares (influências da Segunda Guerra), o gênero passava a se enveredar pelo espaço sideral e pelas guerras nas estrelas. Tudo era ainda muito novo e empolgante, e Planeta dos Macacos deu o tiro de largada para as idéias estourarem, influenciando uma onda de novos cineastas que viriam a usar e abusar delas (entre eles um tal de George Lucas).
O que ninguém conseguiu perceber em um primeiro momento foi a intenção por trás de tudo isso. Sim, havia muito efeito especial para agradar o público, mas sua força se encontrava em outros atributos. Não perdendo a oportunidade de simplesmente detonar a imagem de herói do governo americano, Schaffner alcançou um sucesso comercial enorme através de uma obra que ia contra tudo aquilo que era pregado pela política estadunidense. Debaixo do nariz de sua própria nação, ele criticava não apenas as guerras, mas também a irracionalidade que havia por trás delas no ser humano. Em um filme intitulado de Planeta dos Macacos, é a raça humana que ganha um destaque maior, e não à toa.
Mas o que há de tão feroz por trás de uma aparentemente comum diversão? Logo na sinopse podemos descobrir um primeiro indício. Tudo gira em torno de um grupo de astronautas que acaba aterrissando em um planeta desconhecido, no ano de 3978, habitado por macacos inteligentes que escravizam e fazem experimentos com seres da raça humana. Dos três tripulantes, apenas um consegue escapar das garras destes símios e agora tem a difícil missão de descobrir que lugar é aquele exatamente e que segredo está por trás de tudo aquilo.
Para começar, temos uma situação no mínimo estranha. Os animais sendo retratados como civilizados, enquanto o homem é mostrado como um bicho irracional a ser analisado é algo que nos faz pensar. Depois, temos a reação dos personagens terráqueos diante de uma tão bem estruturada sociedade, regida por símios de inteligência muito acima do comum. Antes da aterrissagem, o protagonista Taylor (Charlton Heston) já se mostra preocupado com sua própria raça – “acredito que em algum lugar do universo deve haver algo melhor que o homem”, diz ele – e a princípio fica pasmo com a disciplina e civilidade que encontra em novas terras. Que surpresa é quando percebe ser uma ameaça para aqueles primatas, que aparentemente escondem um segredo muito importante que pode ser desvendado por ele.
Os momentos de tensão são constantes, o que talvez realce a seriedade que se encontra na mensagem latente nas entrelinhas. Os ângulos pelos quais Schaffner posiciona sua câmera são tão assimétricos que acabam contribuindo para estabelecer uma sensação de perdição e caos no espectador, facilitando assim uma empatia com o protagonista igualmente confuso. Aos poucos o diretor vai endireitando sua câmera, na mesma medida que as coisas vão se esclarecendo, e tudo vai ficando cada vez mais difícil ainda de aceitar. Seguindo essa técnica narrativa curiosa, é impossível não ficar estarrecido diante da revelação bombástica das cenas finais, mesmo que agora a tensão tenha se esvaído e a tela esteja em correta posição. Ou seja, o texto e a imagem vão se revezando na função de nos prender em uma trama que vai ficando mais complicada conforme é desvendada.
Fãs de carteirinha, filas quilométricas, convenções anuais e reapresentações constantes em mostras de cinema são apenas alguns dos resultados do sucesso desta produção. Foi um dos pioneiros a alcançar tamanho frenesi e serviu de inspiração para inúmeras adaptações para televisão, continuações e refilmagens. Nenhuma delas foi tão incisiva e significativa para o cenário cinematográfico e até mundial como foi a obra original. Além de ter servido também como precursor do nascimento do cinema contemporâneo americano, continua até hoje servindo de referência no gênero e mantém em torno de si uma aura de intocável que poucos conseguem construir.
Planeta dos Macacos, apesar de nos propor entretenimento, é um tipo de cinema que alça vôos maiores. Ele assume a função de denunciar, de expor, de cutucar e de refletir. Mais do que corriqueira diversão, sua mensagem é tão pertinente que o tempo não foi capaz de torná-la obsoleta. Talvez seja datado em seu visual, mas seu texto envelheceu sem perder o valor e pode muito bem ser aplicado ao mesmo governo americano, ao mesmo ser humano e à mesma irracionalidade. Se for verdade que a passagem dos anos é a maior prova de qualidade de uma ficção-científica, então estamos diante de um grande exemplar do gênero.
Resenha extraída do site:
Cineplayers
Trailer do novo filme:
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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
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