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Blog destinado a publicação experiências pedagógicas de um professor de História e de trabalhos realizados pelos seus alunos.
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quinta-feira, 22 de março de 2012
domingo, 4 de março de 2012
Tintim no Congo
Depois de retornar da Rússia soviética em 8 de maio de 1930, o mais novo repórter do Le Petit Vingtième
foi aclamado por uma multidão em Bruxelas, Bélgica. Entre jovens e
adultos, os fãs do pequeno aventureiro mal podiam esperar por sua
próxima aventura. E não demorou para Tintim voltar a explorar terras
estrangeiras. Sua próxima viagem começaria em junho de 1930, e se
estenderia até junho de 1931, em publicações semanais no Le Petit Vingtième. Assim surgia Tintim no Congo, a obra mais polêmica de Hergé.
Sinopse
Tintim e Milu partem para a África a fim de realizar mais uma reportagem para o jornal Le Petit Vingtième. Os problemas já começam à bordo do navio, onde Milu troca farpas com um papagaio e encontra um passageiro clandestino. Porém, tais acidentes não impedem que os dois chegem ao seu destino, o Congo Belga, uma colônia africana rica em diamantes.
Em solo africano, o repórter e seu fiel fox-terrier são recepcionados por uma multidão de congoleses, que já conhecem sua fama internacional. Antes de começar sua aventura pelas selvas africanas, Tintim contrata Coquinho, um pequeno congolês que lhe serve como guia. Depois de caçar, enfrentar animais selvagens e interagir com os nativos, o rapaz é levado para a aldeia dos bakanas. Lá, o rei designa Tintim a participar da caça ao leão, mas é Milu quem vence o felino, arrancando-lhe um pedaço da cauda.
Enquanto a popularidade de Tintim cresce entre os nativos, Muganga, o feiticeiro da tribo, sente inveja, e por isso se junta ao criminoso Tom, o mesmo que viajava clandestinamente no navio, para dar um fim em Tintim. Sempre contando com a ajuda de Coquinho e Milu, o jovem repórter escapa de qualquer armadilha, e faz o povo saber a verdade sobre os bandidos. Nomeado novo chefe dos bakanas, Tintim resolve problemas e é aclamado pelo povo.
Depois de ser salvo por um missionário católico, Tintim dá aulas a meninos congoleses, que não sabem quanto é dois mais dois! Ele ainda volta a enfrentar outros animais ferozes, como um leopardo e um elefante, até chegar ao confronto final com Tom. Depois de descobrir quem está querendo lhe matar, o repórter é levado de volta para a Europa, e fica sabendo seu próximo destino: Chicago, EUA. Sem saber o que aconteceu com Tintim e Milu, os nativos choram a sua perda, imaginando - coitados - se os outros europeus serão iguais a ele...
Histórico
Depois do sucesso de Tintim no País dos Sovietes, não havia um caminho que não levasse Hergé a uma nova aventura de Tintim. E ele já planejava voos mais altos: levar o repórter aos Estados Unidos da América, para explorar o então popularíssimo Velho Oeste. Porém, influenciado pelo abade Norbert Wallez, diretor do semanário Le Vingtième Sciècle, o jovem cartunista começou a elaborar uma história em que o personagem apresentaria à juventude belga os valores do colonialismo.
A publicação da aventura de Tintim no país africano começou em 1930, quando o Congo ainda era uma colônia da Bélgica. Entre 1885 e 1907, o rei Leopoldo II explorou até o limite as riquezas naturais do território que, ironicamente, havia batizado como o Estado Livre do Congo. A extração da borracha resultou no extermínio de metade dos 20 milhões de congoleses existentes. Aquela ação desumana chamou a atenção do Parlamento da Bélgica e de outras nações civilizadas, que foram obrigados a intervir. Depois de mais de duas décadas de opressão, o paós se viu livre do domínio do terrível monarca, mas continuou sob a tutela do governo belga. Só há 50 anos o Congo Belga foi declarado livre, tornando-se o que é até hoje, a República Democrática do Congo.
Como nunca havia saído de sua terra natal, Hergé foi em busca de referências para retratar o Congo Belga. As principais bases conhecidas para o desenvolvimento do álbum foram os arquivos do Museu Colonial de Tervueren e o livro "Les silences du colonel Bramble", romance de sucesso de André Maurois, do qual ele reproduziu toda uma cena de caça (ver as páginas 15 e 16 do álbum). Contudo, assim como acontecera no álbum anterior (e voltaria a acontecer no seguinte), as fontes utilizadas por Hergé não foram as melhores, e o resultado foi uma visão bastante estereotipada do povo africano.
No ano de estreia da história, a colônia belga na África continuava sendo explorada. Oitenta vezes maior que o país que o colonizava, o Congo tinha um subsolo extremamente rico. Nessa época, faltava mão-de-obra. Hergé, portanto, devia fazer uma propaganda deste país. O trabalho de propaganda, no entanto, não se restringia ao colonialismo. Especificamente na metade final do álbum, o que se vê é um enaltecimento do serviço missionário. A figura do católico que cuida dos colonos e se preocupa com o bem do próximo é reforçada quando o padre salva a vida do repórter duas vezes, sem ser atrapalhado pela idade ou pela batina. Com isso, criou-se um retrato favorável às ideias colonialistas da Bélgica: o inocente povo africano precisa ser "salvo" pelos sábios europeus.
O próprio Hergé confirmou o erro que cometera. Em entrevista concedida pouco antes de sua morte, o autor disse: "Da mesma maneira quando desenhei Tintim no País dos Sovietes, ao desenhar Tintim no Congo eu estava alimentado de preconceitos do meio burguês no qual vivia... Era 1930. Conhecia deste país apenas o que as pessoas contavam na época: 'os negros são grandes crianças, felizmente estamos lá!', etc. E desenhei os africanos de acordo com estes critérios, de puro espírito paternalista, que era o da época na Bélgica".
Curiosamente, "Tintim no Congo" é o álbum mais popular e apreciado do personagem na África.
Publicações
Sinopse
Tintim e Milu partem para a África a fim de realizar mais uma reportagem para o jornal Le Petit Vingtième. Os problemas já começam à bordo do navio, onde Milu troca farpas com um papagaio e encontra um passageiro clandestino. Porém, tais acidentes não impedem que os dois chegem ao seu destino, o Congo Belga, uma colônia africana rica em diamantes.
Em solo africano, o repórter e seu fiel fox-terrier são recepcionados por uma multidão de congoleses, que já conhecem sua fama internacional. Antes de começar sua aventura pelas selvas africanas, Tintim contrata Coquinho, um pequeno congolês que lhe serve como guia. Depois de caçar, enfrentar animais selvagens e interagir com os nativos, o rapaz é levado para a aldeia dos bakanas. Lá, o rei designa Tintim a participar da caça ao leão, mas é Milu quem vence o felino, arrancando-lhe um pedaço da cauda.
Enquanto a popularidade de Tintim cresce entre os nativos, Muganga, o feiticeiro da tribo, sente inveja, e por isso se junta ao criminoso Tom, o mesmo que viajava clandestinamente no navio, para dar um fim em Tintim. Sempre contando com a ajuda de Coquinho e Milu, o jovem repórter escapa de qualquer armadilha, e faz o povo saber a verdade sobre os bandidos. Nomeado novo chefe dos bakanas, Tintim resolve problemas e é aclamado pelo povo.
Depois de ser salvo por um missionário católico, Tintim dá aulas a meninos congoleses, que não sabem quanto é dois mais dois! Ele ainda volta a enfrentar outros animais ferozes, como um leopardo e um elefante, até chegar ao confronto final com Tom. Depois de descobrir quem está querendo lhe matar, o repórter é levado de volta para a Europa, e fica sabendo seu próximo destino: Chicago, EUA. Sem saber o que aconteceu com Tintim e Milu, os nativos choram a sua perda, imaginando - coitados - se os outros europeus serão iguais a ele...
Histórico
Depois do sucesso de Tintim no País dos Sovietes, não havia um caminho que não levasse Hergé a uma nova aventura de Tintim. E ele já planejava voos mais altos: levar o repórter aos Estados Unidos da América, para explorar o então popularíssimo Velho Oeste. Porém, influenciado pelo abade Norbert Wallez, diretor do semanário Le Vingtième Sciècle, o jovem cartunista começou a elaborar uma história em que o personagem apresentaria à juventude belga os valores do colonialismo.
A publicação da aventura de Tintim no país africano começou em 1930, quando o Congo ainda era uma colônia da Bélgica. Entre 1885 e 1907, o rei Leopoldo II explorou até o limite as riquezas naturais do território que, ironicamente, havia batizado como o Estado Livre do Congo. A extração da borracha resultou no extermínio de metade dos 20 milhões de congoleses existentes. Aquela ação desumana chamou a atenção do Parlamento da Bélgica e de outras nações civilizadas, que foram obrigados a intervir. Depois de mais de duas décadas de opressão, o paós se viu livre do domínio do terrível monarca, mas continuou sob a tutela do governo belga. Só há 50 anos o Congo Belga foi declarado livre, tornando-se o que é até hoje, a República Democrática do Congo.
Como nunca havia saído de sua terra natal, Hergé foi em busca de referências para retratar o Congo Belga. As principais bases conhecidas para o desenvolvimento do álbum foram os arquivos do Museu Colonial de Tervueren e o livro "Les silences du colonel Bramble", romance de sucesso de André Maurois, do qual ele reproduziu toda uma cena de caça (ver as páginas 15 e 16 do álbum). Contudo, assim como acontecera no álbum anterior (e voltaria a acontecer no seguinte), as fontes utilizadas por Hergé não foram as melhores, e o resultado foi uma visão bastante estereotipada do povo africano.
No ano de estreia da história, a colônia belga na África continuava sendo explorada. Oitenta vezes maior que o país que o colonizava, o Congo tinha um subsolo extremamente rico. Nessa época, faltava mão-de-obra. Hergé, portanto, devia fazer uma propaganda deste país. O trabalho de propaganda, no entanto, não se restringia ao colonialismo. Especificamente na metade final do álbum, o que se vê é um enaltecimento do serviço missionário. A figura do católico que cuida dos colonos e se preocupa com o bem do próximo é reforçada quando o padre salva a vida do repórter duas vezes, sem ser atrapalhado pela idade ou pela batina. Com isso, criou-se um retrato favorável às ideias colonialistas da Bélgica: o inocente povo africano precisa ser "salvo" pelos sábios europeus.
O próprio Hergé confirmou o erro que cometera. Em entrevista concedida pouco antes de sua morte, o autor disse: "Da mesma maneira quando desenhei Tintim no País dos Sovietes, ao desenhar Tintim no Congo eu estava alimentado de preconceitos do meio burguês no qual vivia... Era 1930. Conhecia deste país apenas o que as pessoas contavam na época: 'os negros são grandes crianças, felizmente estamos lá!', etc. E desenhei os africanos de acordo com estes critérios, de puro espírito paternalista, que era o da época na Bélgica".
Curiosamente, "Tintim no Congo" é o álbum mais popular e apreciado do personagem na África.
Publicações
A história foi publicada em páginas semanais de 5 de junho de 1930 a 11 de junho de 1931, no Le Petit Vingtième, suplemento info-juvenil do jornal Le Vingtième Siècle.Em
1931, foi publicada como pela primeira vez como álbum em
preto-e-branco. Com 120 páginas, o volume foi editado primeiramente
pelas Editions du Petit Vingtième. Em 1937, uma nova edição chegou às lojas. Agora com 112 páginas ainda em preto-e-branco, lançada pelas Editions Casterman, que a partir dali passaram a publicar os álbuns de Tintim com exclusividade.
Em
1946, Hergé publicou, também pela Casterman, uma nova edição do álbum,
agora totalmente redesenhada. Foi a primeira edição colorida, onde o
autor reduziu de mais de 100 para 62 páginas, um padrão que se manteve
nos álbuns a seguir. As modificações incluíram a melhora dos cenários, o
corte de algumas partes e alteração de diálogos para torná-los mais
vivos. Foi o máximo que Hergé conseguiu fazer para tentar diminuir a
ideologia colonialista sem alterar a história por completo.
Mas as polêmicas ao redor do álbum começaram cedo. Isso fez com que a
publicação em francês fosse interrompida em finais dos anos 1950, e o
livro passou mais de dez anos "enclausurado". Em uma carta datada de 26
de junho de 1963, Hergé implorava ao seu editor pela republicação do
álbum, ao menos na Europa. Ele alegava que seus personagens eram "negros
de fantasia", uma caricatura, assim como todos os personagens de sua
extensa obra. Seu clamor não foi imediatamente atendido, mas ganhou a
atenção dos fãs, incluindo jovens leitores africanos.
Ironicamente, a iniciativa para o retorno da publicação de "Tintim no Congo" partiu de uma revista do próprio Congo (àquela altura já independente, chamado Zaire). Em dezembro de 1969, o número 73 da revista Zaire fez diversos elogios à obra, estimulando sua republicação no mundo todo. O artigo defendia que, "se algumas caricaturas do povo congolês em Tintim no Congo fazem rir os brancos, eles fazem rir abertamente os congoleses, porque os congoleses encontram razões para isso na forma como o homem branco os via".
Ironicamente, a iniciativa para o retorno da publicação de "Tintim no Congo" partiu de uma revista do próprio Congo (àquela altura já independente, chamado Zaire). Em dezembro de 1969, o número 73 da revista Zaire fez diversos elogios à obra, estimulando sua republicação no mundo todo. O artigo defendia que, "se algumas caricaturas do povo congolês em Tintim no Congo fazem rir os brancos, eles fazem rir abertamente os congoleses, porque os congoleses encontram razões para isso na forma como o homem branco os via".
Após ter sido publicado em várias partes do mundo, o álbum chegou à
Escandinávia em 1970. Mas a cena da explosão de um rinoceronte chocou
tanto a editora Egmont que eles pediram a Hergé que fizesse uma
versão menos violenta do encontro com o animal. Esta versão da página 56
- veja a comparação abaixo - é a que está presente nas edições mais
atuais do álbum, incluindo a que foi lançada no Brasil em 2008 pela Cia das Letras.
Curiosidades
:: Apesar de o Congo Belga ter sido declarado
independente apenas em 1960, logo após a Segunda Guerra Mundial, em
1946, Hergé fez uma revisão do ábum, considerando que continha uma visão
demasiadamente “colonialista e paternalista”. Uma das modificações mais
notáveis aconteceu na cena que hoje aparece na página 36 do álbum:
enquanto na edição revisada Tintim dá aula de matemática a meninos
congoleses, na primeira edição, em preto-e-branco, a aula é de geografia
e, apontando para um mapa desenhado no quadro-negro, o repórter
declara: "Hoje vou lhes falar sobre vossa pátria: a Bélgica".
:: Quando foi publicada pela primeira vez em Portugal, na revista O
Papagaio, a história foi batizada de "Tim-Tim em Angola". A versão
portuguesa da aventura mostrava “Tim-Tim” como um repórter lusitano, ao
invés de belga, visitando não o Congo, mas a então colônia portuguesa de
Angola. Nesta versão, Milu foi rebatizado como Rom-Rom, e apresentado
como uma fêmea de pêlo amarelo.
Na versão mais recebte do álbum, os Dupondt fazem uma breve aparição no
primeiro quadrinho. Mas a verdadeira estreia dos detetives não foi em
"Tintim no Congo". Na versão em preto-e-branco, são outros personagens
que aparecem observando o embarque de Tintim.
Além de Dupond e Dupont, no primeiro quadrinho da página 1 aparem também Quim e Filipe (personagens de Hergé), Edgar P. Jacobs e Jacques Van Melkebeke (colaboradores de Hergé), além do próprio Georges Remi.
:: Apesar de não aparecer escrevendo nenhum artigo, neste álbum Tintim exerce a função de repórter. Entre seus instrumentos de trabalho está um fonógrafo e uma câmera filmadora, que lhe servirão para gravar um documentário.
:: Apesar de não aparecer escrevendo nenhum artigo, neste álbum Tintim exerce a função de repórter. Entre seus instrumentos de trabalho está um fonógrafo e uma câmera filmadora, que lhe servirão para gravar um documentário.
:: Menos de um mês depois do fim da publicação de "Tintim no Congo", o Le Petit Vingtième
organizou um evento semelhante ao ocorrido com o fim de "Tintim no País
dos Sovietes". Em 9 de julho de 1931, um garoto (Henri Dendoncker) e um
fox-terrier, acompanhados de
dez congoleses, representaram Tintim e Milu no retorno à Bélgica. Uma
multidão esteve presente à Gare du Nord, incluindo o próprio Hergé e
dois meninos trajados como Quim e Filipe.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
O lado obscuro de Tintim nova produção de Steven Spielberg
O lado obscuro de Tintim
O lançamento mundial do filme Aventuras de Tintim, de Steven Spielberg, ressuscita antigos fantasmas do personagem criado por Hergé no final dos anos 1920
Extraído da Revista Aventuras na História.
por Cristine Kist / Ilustração: Glauco Diógenes | 28/11/2011 16h12
Nos 24 livros (um deles incompleto) lançados entre 1930 e 1986, Tintim retratou os conflitos do século 20 em passagens que, tanto hoje como na época, soavam politicamente incorretas. Em 5 décadas, Hergé colecionou processos, críticas, acusações e teve até de pedir desculpas pelas derrapadas de Tintim. As polêmicas continuaram após a morte do autor, em 1986, mas a série seguiu em alta e o filme reacende o interesse pelo personagem que ajudou a construir o retrato de um dos períodos mais turbulentos da história. As aventuras de Tintim começaram a ser publicadas quando Hergé virou editor do suplemento jovem do jornal Le Vingtième Siècle, de Bruxelas, na Bélgica. O quadrinista se baseou nos jornalistas mais famosos da época, enviados para cobrir grandes conflitos internacionais. Tintim trabalha para o próprio Le Petit Vingtième, como era chamado o suplemento, mas é o único jornalista do mundo que não parece preocupado com prazos ou com o envio de material para a redação.
Na sua primeira aparição, em 1929, ele viaja para a recém-fundada União Soviética. Na época com 22 anos, Hergé tinha ficado muito impressionado com um livro escrito pelo cônsul belga sobre as condições de trabalho no regime socialista e, por isso, optou pela URSS como destino. O país é retratado com grande exagero de estereótipos (ainda na 1ª página, Tintim diz ao chefe que enviará "cartões-postais, vodca e caviar", e Milu afirma ter ouvido falar que lá tem "pulgas" e "ratos"). Fica clara a postura anticomunista do autor. Mas, como o próprio Hergé comentou em entrevista a um programa de TV nos anos 1970, "Tintim no País dos Sovietes foi muito bem-recebido porque naquela época quase todo mundo era contra os bolcheviques".
Primeiras turbulências
Se a passagem pela URSS não trouxe grandes problemas, a 2ª viagem foi bem menos tranquila. Pelo menos para Hergé. Quando Tintim foi ao Congo, em 1931, o país africano ainda era uma colônia belga (a independência veio só em 1960) e os quadrinhos reproduziam a visão eurocentrista da época. Na 1ª versão do álbum, os congoleses falavam um francês primitivo e eram extremamente submissos. Em um dos trechos, Tintim substitui um professor em uma escola missionária e começa a aula apontando para um mapa da Europa: "Meus queridos amigos, hoje eu vou falar sobre o seu país: a Bélgica". Nas versões posteriores, o mapa foi substituído por um quadro negro, e a lição sobre a Bélgica por uma de matemática. Quando Hergé frequentava a escola (que ele odiava, por sinal), a suposta "condição inferior" dos negros ainda era ensinada como ciência pelos livros didáticos. Ele mesmo chegou a admitir em mais de uma oportunidade que o álbum retrata a visão ingênua da época.
Tiago Nogueira, editor da Companhia das Letras, que publica a série no Brasil, acha que o problema não é exclusivo desse livro: "Toda a série tem uma visão eurocentrista. É sempre a história do menino loiro desbravador que vai a países diferentes e leva conhecimento aos locais". Em 2007, um cidadão congolês pediu a um tribunal belga que Tintim no Congo fosse retirado do mercado. O processo ainda está correndo, e o resultado deve sair apenas em fevereiro do ano que vem. Mas até a ONG Peta, que defende os direitos dos animais, já se manifestou a favor de um boicote ao livro. Além de supostamente racista, Tintim também se mostra um grande fã de caçadas. Depois de atirar em veados (mata uma dúzia deles e diz que, "em todo caso, carne fresca é o que não vai faltar"), um jacaré e um elefante, mata e esfola um macaco para vestir sua pele. "Nós discutimos muito antes de publicar e, quando publicamos, optamos pela versão que já continha algumas modificações. Mas o fato é que é um clássico e representa a mentalidade de uma época", diz Nogueira.
Quando a Bélgica foi invadida pela Alemanha durante a 2ª Guerra, em 10 de maio de 1940, Hergé decidiu permanecer no país e passou a publicar as tirinhas de Tintim em um jornal que era controlado pelos nazistas. Daí para as acusações de que era simpatizante do regime alemão, foi um pulo. Mas a verdade é que ele próprio não se ajudou. Em A Estrela Misteriosa, álbum publicado justamente durante a ocupação, em 1942, duas personagens com características judaicas se perguntam se poderão dar calote em seus credores quando o fim do mundo é anunciado por um lunático (o trecho foi removido de edições posteriores). O grande vilão de A Estrela Misteriosa tinha um sobrenome judeu: Blumenstein. Hergé alegou que a escolha não tinha sido intencional e chegou a alterar o nome para Bohlwinkel. Infelizmente, só mais tarde alguém lembrou de avisar a Hergé que esse também era um sobrenome judeu. Com o fim da guerra, Hergé chegou a ser investigado pelo governo da Bélgica, mas foi inocentado. Ele ainda recebeu uma espécie de perdão público quando se uniu a um dos heróis da resistência belga, Raymond Leblanc, para a criação de uma revista sobre Tintim.
Simpatia pela China
A publicação de O Lótus Azul, 5º álbum da série, marcou uma virada na carreira de Hergé, como ele mesmo chegou a admitir em entrevistas: "Quando comecei, não tinha muita noção. Era só diversão para mim contar aquelas histórias". O Lótus Azul encerrou uma sequência de álbuns nos quais os países que serviam como cenário das narrativas eram retratados com base em estereótipos (depois dos russos comunistas e dos africanos abestalhados, Tintim ainda visitaria uma América ocupada quase somente por indígenas e mafiosos e uma Índia repleta de marajás). Hergé pareceu ter compreendido a dimensão do seu trabalho e pesquisou a fundo a cultura do país retratado - nesse caso, a China.
Depois de anunciar no final do 4º álbum, Os Cigarros do Faraó, que Tintim continuaria suas aventuras no Oriente, Hergé recebeu uma carta de um abade pedindo que pesquisasse sobre a história da China. Ele concordou, e o abade apresentou-o a Zhang Chongren, estudante chinês que passava uma temporada na Academia de Belas-Artes de Bruxelas. Os dois se entenderam tão bem que Chongren aparece como um dos persongens de O Lótus Azul: ele é Tchang, um garoto órfão que se torna amigo de Tintim depois de ser salvo por ele. Ainda durante a passagem pela China, Tintim visita uma casa de ópio e aparece chapado pela droga, uma versão mais branda da heroína. O álbum foi publicado em 1936, e as casas de ópio só foram fechadas pelo regime comunista de Mao Tsé-Tung, em 1949. Mas nem é preciso ir tão longe. Os detratores de Hergé condenam até a amizade de Tintim com o Capitão Haddock, um dos principais personagens da série. No começo, o capitão estava quase sempre bêbado e seria uma má influência para jovens leitores. O próprio Hergé acabou optando por transformá-lo com o tempo em um personagem de hábitos mais recatados. Até o que não aparece nas aventuras de Tintim causa polêmica.
Existe uma corrente que define Hergé como misógino, já que existe apenas uma personagem feminina que se destaca ao longo de todas as histórias: a espanhola Bianca Castafiore, uma soprano que adora cantar em momentos inapropriados. Hergé morreu em 1983, aos 75 anos. No processo movido na Bélgica pedindo o recolhimento de Tintim no Congo, quem luta a favor da obra é a editora francesa Casterman. No Brasil, a Companhia das Letras também defende a publicação do livro: "Não dá para limpar uma obra que foi escrita quando a mentalidade era diferente da nossa. Se isso fosse levado adiante, teríamos de repensar toda a literatura", diz Nogueira. Se as editoras se mantêm fiéis mesmo às obras mais controversas de Hergé, o mesmo não pode ser dito do próprio autor (e nem mesmo de seus fãs). "Ele não reeditou Tintim no País dos Sovietes por muito tempo porque considerava esse um trabalho inferior", explica Simon Doyle, responsável por um dos maiores sites dedicados a Tintim no mundo todo, o Tintinologist.org. "Talvez o mesmo possa ser feito com Tintim no Congo. Posso compreender a situação das vítimas de racismo e tenho que questionar o valor do livro hoje", afirma Doyle.
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