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sábado, 29 de janeiro de 2011

Entenda o que está acontecendo no Egito 29/01/2011


Revolta em países árabes evidencia surgimento de forças políticas locais, dizem especialistas

A crescente onda de revoltas populares em países árabes, reivindicando melhoria nas condições de vida e maior liberdade política, pode se refletir no enfraquecimento da influência das potências ocidentais e no surgimento de forças políticas locais, dizem especialistas. Há agitações populares na Tunísia e Egito, bem como na Argélia, Jordânia e Marrocos.
As perspectivas de novos levantes contra governos ditatorias começam a traçar um outro futuro nos países árabes. Depois de a Tunísia ter as ruas tomadas por populares que lograram a derrubada de Zine El Abidine Ben Ali – no poder há 23 anos –, agora foi a vez de o Egito enfrentar violentos protestos pela saída de Hosni Mubarack, que já tem mais de 30 anos à frente do país.


Mesmo constatando que a realidade política e social dos países com iminentes movimentos sociais seja distinta, os especialistas concordam que há um novo elemento que forma um cenário semelhante: a insatisfação da sociedade com as condições de vida, de emprego, do preço dos alimentos e, ainda mais evidente, com a durabilidade dos governos autoritários.


Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), acredita que há o surgimento de um novo perfil entre as forças que controlam os países árabes. Ele aponta o perfil como uma oposição à dualidade dos regimes, que tem, de um lado, as ditaduras e, de outro, os radicais – associado por países como os Estados Unidos ao terrorismo. Nasser acredita que estas forças podem não chegar ao poder, mas evidenciam uma tendência importante.
“Essa tendência no Ocidente chamamos de classe média. Aquela que luta pelo fim do desemprego e por liberdade política, mas ao mesmo tempo obtém informações pelos meio de comunicação e redes sociais na internet. Aí está um novo perfil”, explica Nasser.
Assim como ocorreu na Tunísia, os egípcios se manifestaram a favor das revoltas pelas mídias sociais. Mensagens que circularam no Twitter e no Facebook – como “Ontem todos éramos tunisianos, hoje todos somos egípcios e amanhã todos seremos livres” – espalharam-se entre internautas que manifestavam insatisfação. Na terça-feira (25), páginas de algumas das redes sociais já encontravam-se inacessíveis no Egito.



Para Cristina Soreanu Pecequilo, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o uso dessas ferramentas pelos movimentos democráticos é importante para que se comece a criar uma cultura de troca de ideias. Porém, ela lamenta que em alguns países com regime ainda mais fechado a maioria da população não tenha acesso a essas ferramentas e, portanto, fica sem ter conhecimento sobre as manifestações.
Para a professora, há um enfraquecimento das potências ocidentais sobre a política de países árabes. As evidências partem da constatação de que a posição adotada pelos governos dos Estados Unidos e da União Europeia não seja mais visto como regra. Os exemplos citados por Cristina Pecequilo são a relação da França com Argélia e Tunísia, e a dos Estados Unidos com o Egito.
“Para os Estados Unidos é mais seguro o Egito com um governo moderado no poder do que um Egito que de repente tenha eleições livres ou que tenha no poder um grupo fundamentalista islâmico. Embora eles (EUA) tenham discurso pró-democracia, o interesse é praticar sua política internacional”, critica Cristina Pecequilo.


Na terça-feira (25), o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em seu discurso ao Estado da União afirmou que os norte-americanos estão ao lado do povo tunisiano, “onde a vontade do povo se provou mais poderosa que as ordens de  um ditador”. No entanto, Obama não fez  referência ao Egito, onde as manifestações também tomaram as ruas contra o ditador Mubarak, que é aliado de Washington.
Para Nasser, a eventual troca de regime em Cairo é muito mais significativa que em Túnes, pelo fato de o Egito ser considerado pelos Estados Unidos como uma peça-chave da região. “Por ser um país poderoso militarmente e que tem diálogo com Israel, a troca de governo no Egito é mais improvável. (O governo atual) vai contar com apoio internacional, já sinalizado por Obama, que não foi muito entusiasta dos movimentos, por apoiar governos como do Egito e de outros países há muito tempo”, ressaltou o professor.


Extraído da revista Carta Capital.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Histórias da Ditadura

Elis Regina, ditadura e Lula
Luis Nassif Online (Publicado na Revista Carta Capital)
20 de janeiro de 2011 às 10:08h
Em 36 anos de vida, a cantora gravou 27 LPs, 14 compactos simples e seis duplos. Um total de quatro milhões de cópias vendidas

Por Sérgio Luz*

Sair da vida para um cemitério, é comum, acontece com todo mundo. Mas sair de um cemitério para a vida, só mesmo simbolicamente. Pois foi o que aconteceu com uma gaúcha chamada Elis Regina Carvalho Costa que, em 36 anos de vida, gravou 27 LPs, 14 compactos simples e seis duplos, que venderam um total de quatro milhões de cópias – um número até hoje impressionante.

Em poucos anos, Elis sai do Inferno para o Paraíso. Ao Inferno, ela chega ao ser “enterrada” no Cemitério dos Mortos-Vivos do Cabôco Mamadô – para onde o cartunista Henfil, no semanário O Pasquim, mandava pessoas que, na opinião dele, colaboravam com a ditadura militar no início da década de 70. Ao Paraíso, Elis ascende ao liderar um grupo de artistas de esquerda (Fagner, Belchior, Gonzaguinha, João Bosco, Macalé e Carlinhos Vergueiro, entre outros), que faz vários shows para levantar dinheiro para o Fundo da Greve do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, no ABC paulista, em 1979.

Essa vivência política é um lado pouco conhecido de Elis Regina que, aos 18 anos, foi sozinha para o Rio de Janeiro, onde chegou a morar num quarto-e-sala na Rua Barata Ribeiro, 200, em Copacabana (um prédio tipo balança-mas-não-cai, celebrizado numa peça de teatro, “Um Edifício Chamado 200”, de Paulo Pontes).

Em 1965, acontece o estouro: Elis vence o I Festival de Música Popular, da TV Excelsior, com “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. Elis fez pelo menos três shows antológicos: Falso Brilhante (1975), Transversal do Tempo (1977) e Saudade do Brasil (1980). Dos seus discos, a maioria de qualidade acima da média, o melhor é o que gravou com Tom Jobim, em 1974, nos EUA, considerado uma obra-prima, mesmo por quem não gosta de Elis Regina. Por causa do seu gestual no palco, agitando os braços como se nadasse de costas, Elis foi chamada de Elis-Cóptero e Élice-Regina, mas o apelido que pega, mesmo, é o que lhe dá Vinicius: Pimentinha. Sim, porque, dali em diante, já como estrela conhecida no país inteiro, ela iria, por assim dizer, apimentar muitos aspectos da vida cultural brasileira, durante praticamente duas décadas.

Do cemitério à anistia – O episódio mais apimentado da vida de Elis, sem dúvida, foi o seu “enterro” no Cemitério do Cabôco Mamadô. Lá, ela fez companhia a gente como Wilson Simonal, Amaral Neto (um deputado carioca de direita, defensor da pena de morte e alcunhado de Amoral Nato), e Flávio Cavalcanti (um apresentador de TV que liderou, metralhadora na mão, a invasão e depredação do jornal Última Hora, no Centro do Rio de Janeiro, logo no início de abril de 1964).

Elis foi “enterrada” por Henfil por duas atitudes em relação ao Governo Federal, na época chefiado pelo ditador-de-plantão general Garrastazu Médici, o mais sanguinário dos militares-presidentes. Primeiro, foi a gravação de uma chamada veiculada em todas as TVs, a partir de abril, conclamando o povo a cantar o Hino Nacional no dia 7 de setembro de 1972. Foi o ano do Sesquicentenário da Independência, uma data que a ditadura aproveitou ao máximo (inclusive com a organização de uma Mini-Copa de futebol, vencida pela Seleção Brasileira).

Vários outros artistas também apareceram em chamadas de TV, promovendo a Olimpíada do Exército, em filmes produzidos pela Assessoria Especial de Relações Públicas da Presidência da República. A AERP foi uma reedição atualizada do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) do Estado Novo (1937-1945). Por isso, Marília Pêra, Paulo Gracindo, Tarcísio Meira e Glória Menezes, entre outros, também foram “enterrados”.

A segunda atitude de Elis que provocou a ira-santa de Henfil (e um segundo “enterro…”) foi a apresentação dela na Olimpíada da Semana do Exército, em setembro do mesmo ano, 1972.

Hoje, mais de 30 anos depois do Cemitério do Cabôco Mamadô do Pasquim, é preciso entender aqueles tempos-de-chumbo para compreender a postura radical de Henfil. Vivia-se um momento de intensa repressão política. Mas a razão principal do “enterro” de Elis, está no próprio Henfil – um artista engajado que não fazia concessões, e pagou por isso –, que tinha um irmão exilado, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, um militante que fugiu do Brasil para não ser assassinado pelos órgãos de segurança.

E Betinho, indiretamente, teve a ver com um dos motivos para a passagem de Elis do Inferno para o Paraíso: a gravação, em março de 1979, de uma das músicas politicamente mais engajadas da MPB, “O Bêbado e a Equilibrista”. De João Bosco e Aldir Blanc, a música foi uma espécie de hino de um dos mais importantes movimentos políticos da História do Brasil: a luta pela anistia ampla, geral e irrestrita. A campanha foi lançada em janeiro de 1978, com a criação do Comitê Brasileiro de Anistia (CBA), no Rio de Janeiro. “O Bêbado e a Equilibrista” – que emociona até hoje, fala na “volta do irmão do Henfil”. Na época, Betinho – que, como Henfil e o outro irmão, Francisco Mário, era hemofílico e pegou Aids numa transfusão de sangue – estava no México, esperando, justamente, a anistia.

Elis e Henfil: cara-a-cara – O “coveiro” Henfil e sua “defunta” Elis acabaram se encontrando, por iniciativa dela. Sobre esse momento, Henfil deu, três anos depois da morte da cantora, um depoimento tão sincero quanto comovente a Regina Echeverria, autora de “Furacão Elis” (Nórdica – Rio de Janeiro, 1985). O cartunista não pediu desculpas por tê-la “enterrado”, mas se arrependeu. Os dois acabaram amigos sinceros, trabalharam juntos e se falaram até dois meses antes da morte da cantora. Com a palavra, Henfil:

– Foi igualzinho a hoje. De repente, os artistas são arrebanhados pelo Governo, só que – eu não sabia – debaixo de vara, de ameaças, para fazerem uma campanha da Semana do Exército. O que eu vi, na realidade, foi o comercial de televisão. Me aparece o Roberto Carlos dizendo: “Vamos lá, pessoal, cantar o Hino Nacional”. E, de repente, a Elis surge regendo um monte de cantores, de fraque de maestro, regendo o Hino Nacional. E nessa época nós estávamos no Pasquim e eu, mais que os outros, contra-atacando todos aqueles que aderiram à ditadura, ao ditador-de-plantão. (…). Eu só me arrependo de ter enterrado duas pessoas – Clarice Lispector e Elis Regina. (…) Eu não percebi o peso da minha mão. Eu sei que tinha uma mão muito pesada, mas eu não percebia que o tipo de crítica que eu fazia era realmente enfiar o dedo no câncer. Quando nos encontramos anos depois, (…) fomos jantar numa cantina perto do Teatro Bandeirantes e ela fez questão de sentar na minha frente. (…) De repente, ela começou a falar: “Pô, bicho, eu te amo tanto, bicho, te gosto tanto”. E eu já não estava gostando dessa história de “bicho”, porque eu não gostava do jeito que ela falava, nunca gostei. Daí me irritei e disse: “Elis, o que você está querendo dizer com isso? ”. Aí, ela começou a chorar. As pessoas na mesa enfiaram a cara no prato, todos sabiam o que eu tinha feito, só eu não sabia. Ela disse: “Pô, você me enterrou”, e começou a me esculhambar, dizendo que aquilo foi uma covardia, que ela estava ameaçada. (…) Elis nunca me perguntou se eu estava atacando porque ela estava defendendo um regime militar que queria matar meu irmão. (…) Resolvi engolir. Ela terminou de falar, entendeu meu subtexto: “Tá, Elis, eu aceito”. (…) Evidente que os militares estavam pressionando o país inteiro. Eu sabia disso, os militares faziam censura prévia no meu jornal (Pasquim), presença física, todo dia. (…) Então, tinha todo o direito de criticar uma pessoa que ia para a televisão se entregar. Eu não mudei em nada e ela percebeu isso. (…)

– Ela tinha a preocupação de me provar que tinha mudado. Que continuava uma pessoa de confiança ideologicamente. (…) Como se eu fosse inspetor de quem não é de esquerda. Aí, mandava dinheiro: do show que fez no Canecão, inclusive para que eu entregasse aos grevistas de São Bernardo. (…)

No enterro, uma roupa censurada – A atividade política de Elis Regina não se limitou apenas aos shows para os grevistas do ABC ou à gravação do Hino da Anistia. Por exemplo: ela se engajou no esforço de vários artistas para saber o paradeiro do pianista Tenório Júnior, que fazia uma excursão a Buenos Aires, acompanhando Vinicius de Moraes e Toquinho. O músico foi preso na rua, em março de 1976 – sem documento, quando ia a uma farmácia comprar remédio para asma – possivelmente confundido pela repressão argentina com um guerrilheiro.

Elis casou duas vezes (com o compositor Ronaldo Bôscoli e com o músico César Camargo Mariano), e teve três filhos (o músico e produtor João Marcelo Bôscoli e os cantores Pedro Mariano e Maria Rita). Morreu em São Paulo por overdose de cocaína, às 11h45 do dia 19 de janeiro de 1982. O velório foi no Teatro Bandeirantes, por onde passaram mais de 60 mil pessoas. No dia seguinte, 20 de janeiro, Elis é enterrada no Cemitério (de verdade) do Morumbi. Seu corpo vestia uma roupa que ela foi proibida, pela Censura, de usar no show Saudade do Brasil – uma camiseta com um desenho da Bandeira do Brasil onde, no lugar do “Ordem e Progresso”, estava escrito: ELIS REGINA. Quer dizer: Elis Regina Carvalho Costa, politicamente falando, riu por último ao ser enterrada com a roupa censurada. Tanto que, hoje, é lembrada pela música “O Bêbado e a Equilibrista” e a anistia, e não pela sua “passagem” pelo Cemitério dos Mortos-Vivos do Cabôco Mamadô do irmão do Betinho.

* Matéria do Luis Nassif Online publicada originalmente no blog Mania de história

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