Cadastre-se na rede social Filmow e dê sua opinião sobre o filme visto na aula do Prof.
Blog destinado a publicação experiências pedagógicas de um professor de História e de trabalhos realizados pelos seus alunos.
Mostrando postagens com marcador história contemporânea. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador história contemporânea. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
segunda-feira, 5 de março de 2012
Tintim na América
Tintim na América foi o
terceiro álbum concebido por Hergé para a série "As Aventuras de
Tintim". Assim como os episódios anteriores, a história foi publicada
semanalmente no jornalzinho Le Petit Vingtième, de 3 de setembro
de 1931 a 20 de outubro de 1932. Pode-se dizer que esta é uma
continuação "indireta" da aventura de Tintim no Congo, pois tem ligação
com personagens e elementos do álbum anterior. Caracterizado por
situações absurdas e inesperadas, este é o álbum que mais evidencia a
sorte do personagem principal...
Sinopse
Histórico
Publicação
Extraído do site: www.tintimportintim.com
Sinopse
1931. Depois de enfrentar um bando de
gângsters no Congo, Tintim é enviado para Chicago, EUA, para livrar a
cidade dos criminosos. Como um "repórter-mirim" fará isso, ninguém sabe,
mas conhecendo sua fama internacional, os bandidos começam a se
preocupar. A mando de Al Capone, "o rei dos bandidos", o jovem repórter é
sequestrado assim que chega ao país mas, desde já, sua sorte começa a
agir.
Assim que escapa dos comparsas de Al Capone, Tintim cai numa armadilha
de Bobby Smiles, líder do Sindicato dos Gângsters de Chicago. Como não
aceita a proposta de se juntar ao grupo para vencer o "rei dos
bandidos", o repórter acaba ganhando mais inimigos, e sofre novas
tentativas de assassinato. Quando ajuda a polícia a prender um grupo de
bandidos, Tintim deixa Smiles escapar. Assim começa uma perseguição que
leva o personagem a outro cenário: o velho-oeste americano.
Em RedDog City, Tintim adota um estilo cowboy,
pois suas roupas são estranhas demais para os habitantes locais. No
território dos peles-vermelhas, o repórter é sequestrado pela tribo dos
Pés-Negros, graças a um plano de Bobby Smiles. Depois de causar uma
confusão e conseguir escapar dos nativos, Tintim acidentalmente descobre
um poço de petróleo, o que atrai a atenção imediata de uma multidão de
investidores, gerando um desenvolvimento instantâneo do local. Depois de
enfrentar alguns perigos, Tintim finalmente manda Smiles para a cadeia,
mas seus problemas estão longe de terminar...
Quando descobre que Milu foi
sequestrado, Tintim conhece um detetive pra lá de atrapalhado, que
investiga o caso. Mais tarde, é preso injustamente e enfrenta outros
vilões perigosos, que fazem de tudo para acabar com sua vida. Apesar de
derrotar a todos eles, Tintim não aparece vencendo o maior de todos, Al
Capone. Mesmo assim, ao final da aventura, é aclamado por uma multidão
nas ruas de Chicago.
Histórico
A aventura de Tintim no Congo
já sugeria que o personagem estava pronto para invadir o território
americano. O objetivo original de Hergé era escrever um relato sobre a
opressão dos índios nos EUA, assunto que sempre o havia fascinado. Ele
queria mostrar os cenários de filmes de faroeste, os desertos e
pradarias da América do Norte, bem como os cowboys e índios peles-vermelhas. Mas a ideia não agradava tanto ao abade Norbert Wallez,
que havia imaginado uma história sobre o sindicato do crime em Chicago,
na intenção de ilustrar o quão corrupto os Estados Unidos realmente
eram (vale lembrar que abade era direitista). Dessa forma, Hergé
decidiu apresentar em sua aventura outras características da América,
como as indústrias modernas, as grandes cidades e, é claro, dos
mafiosos.
Assim como acontecera na concepção de
"Tintim no País dos Sovietes" e "Tintim no Congo", as fontes de Hergé
eram muito limitadas, sem contar que, àquela altura, ele ainda não havia
saído da Bélgica. Dessa forma, suas únicas inspirações foram os livros
"Scènes de la vie Future" (Cenas da vida Futura), de Georges Duhamel, "L'Histoire des Peaux-Rouges" (A História dos Peles-Vermelhas), de Paul Coze e uma edição especial da revista "Le Crapouillot", falando sobre os Estados Unidos da América.
Hergé começa o álbum seguindo as
orientações de Wallez, mas, na tentativa de pôr seus objetivos iniciais
em prática, providencia um jeito de levar o repórter para o velho oeste.
A cidade, que na edição original se chamava "Redskincity" (Cidade Pele
Vermelha, em tradução literal), fica perto de um acampamento indígena,
onde o cartunista aproveita para desenvolver algumas de suas ideias. No
entanto, a fim de evitar problemas com Wallez, editor do jornal, Hergé
usa os índios para expor a corrupção dos norte-americanos. Faz isso em
cenas que mostram os 'brancos' explorando as terras dos nativos, quando
descobrem que são uma rica fonte de petróleo.
Outros temas relacionados à realidade
americana da época também são retratados no álbum, mas de maneira um
tanto superficial. Servem como exemplo o fracasso da Lei Seca
(ilustrado por um delegado beberrão), a guerra de gangues (enfatizada
pela rivalidade entre os grupos de Al Capone e Bobby Smiles) e a
discriminação aos negros (que aparecem sempre como subordinados).
Publicação
Tintim na América foi publicado no Le Petit Vingtième
de 3 de setembro de 1931 a 20 de outubro de 1932, duas páginas por
semana. Em 1932, foi publicado pela primeira vez como álbum, em
preto-e-branco, pelas Éditions du Petit Vingtième. Em 1941 começou a primeira atualização do álbum, inicialmente com a finalidade de publicação em um jornal holandês, Het laatste Nieuws. Mas
a primeira edição colorida só saiu em 1945, quando Hergé redesenhou a
história, assim como havia feito com o álbum anterior, alterando o
número de páginas para 62, o padrão de seus livros. A publicação saiu
pela editora francesa Casterman.
Como no caso de Tintim no Congo,
a versão a cores do foi beneficiada pelos progressos que a prática e a
experiência já haviam dado a Hergé. Na nova versão, publicada em 1946,
foram feitas várias melhorias na linguagem visual, que tornaram a
leitura mais fluente e compreensível. Desta aventura em diante, o
domínio da arte que o cartunista alcançou fazia as imagens falam por si
mismas, sem depender tanto do texto.
O primeiro país a traduzir o álbum
para outra língua foi Portugal - que aliás foi o primeiro a publicar uma
obra de Hergé fora do eixo franco-belga. Em 16 de abril de 1936, a
revista infantil "O Papagaio" começou a publicação da história, com o
título "As Aventuras de Tim-Tim na América do Norte". Com essa
empreitada, Portugal entrou para a história como o primeiro país a
publicar uma aventura de Tintim traduzida e a cores. Clique na imagem
abaixo e veja a primeira página:
Um
dos países que mais resistiu à publicação da aventura foram os Estados
Unidos. Encontrar um editor para o álbum na terra em que ele era
ambientado foi uma tarefa praticamente impossível. Na próxima parte,
descubra as modificações que Hergé teve de fazer para conseguir enviar
Tintim para a verdadeira América...
domingo, 4 de março de 2012
Tintim no Congo
Depois de retornar da Rússia soviética em 8 de maio de 1930, o mais novo repórter do Le Petit Vingtième
foi aclamado por uma multidão em Bruxelas, Bélgica. Entre jovens e
adultos, os fãs do pequeno aventureiro mal podiam esperar por sua
próxima aventura. E não demorou para Tintim voltar a explorar terras
estrangeiras. Sua próxima viagem começaria em junho de 1930, e se
estenderia até junho de 1931, em publicações semanais no Le Petit Vingtième. Assim surgia Tintim no Congo, a obra mais polêmica de Hergé.
Sinopse
Tintim e Milu partem para a África a fim de realizar mais uma reportagem para o jornal Le Petit Vingtième. Os problemas já começam à bordo do navio, onde Milu troca farpas com um papagaio e encontra um passageiro clandestino. Porém, tais acidentes não impedem que os dois chegem ao seu destino, o Congo Belga, uma colônia africana rica em diamantes.
Em solo africano, o repórter e seu fiel fox-terrier são recepcionados por uma multidão de congoleses, que já conhecem sua fama internacional. Antes de começar sua aventura pelas selvas africanas, Tintim contrata Coquinho, um pequeno congolês que lhe serve como guia. Depois de caçar, enfrentar animais selvagens e interagir com os nativos, o rapaz é levado para a aldeia dos bakanas. Lá, o rei designa Tintim a participar da caça ao leão, mas é Milu quem vence o felino, arrancando-lhe um pedaço da cauda.
Enquanto a popularidade de Tintim cresce entre os nativos, Muganga, o feiticeiro da tribo, sente inveja, e por isso se junta ao criminoso Tom, o mesmo que viajava clandestinamente no navio, para dar um fim em Tintim. Sempre contando com a ajuda de Coquinho e Milu, o jovem repórter escapa de qualquer armadilha, e faz o povo saber a verdade sobre os bandidos. Nomeado novo chefe dos bakanas, Tintim resolve problemas e é aclamado pelo povo.
Depois de ser salvo por um missionário católico, Tintim dá aulas a meninos congoleses, que não sabem quanto é dois mais dois! Ele ainda volta a enfrentar outros animais ferozes, como um leopardo e um elefante, até chegar ao confronto final com Tom. Depois de descobrir quem está querendo lhe matar, o repórter é levado de volta para a Europa, e fica sabendo seu próximo destino: Chicago, EUA. Sem saber o que aconteceu com Tintim e Milu, os nativos choram a sua perda, imaginando - coitados - se os outros europeus serão iguais a ele...
Histórico
Depois do sucesso de Tintim no País dos Sovietes, não havia um caminho que não levasse Hergé a uma nova aventura de Tintim. E ele já planejava voos mais altos: levar o repórter aos Estados Unidos da América, para explorar o então popularíssimo Velho Oeste. Porém, influenciado pelo abade Norbert Wallez, diretor do semanário Le Vingtième Sciècle, o jovem cartunista começou a elaborar uma história em que o personagem apresentaria à juventude belga os valores do colonialismo.
A publicação da aventura de Tintim no país africano começou em 1930, quando o Congo ainda era uma colônia da Bélgica. Entre 1885 e 1907, o rei Leopoldo II explorou até o limite as riquezas naturais do território que, ironicamente, havia batizado como o Estado Livre do Congo. A extração da borracha resultou no extermínio de metade dos 20 milhões de congoleses existentes. Aquela ação desumana chamou a atenção do Parlamento da Bélgica e de outras nações civilizadas, que foram obrigados a intervir. Depois de mais de duas décadas de opressão, o paós se viu livre do domínio do terrível monarca, mas continuou sob a tutela do governo belga. Só há 50 anos o Congo Belga foi declarado livre, tornando-se o que é até hoje, a República Democrática do Congo.
Como nunca havia saído de sua terra natal, Hergé foi em busca de referências para retratar o Congo Belga. As principais bases conhecidas para o desenvolvimento do álbum foram os arquivos do Museu Colonial de Tervueren e o livro "Les silences du colonel Bramble", romance de sucesso de André Maurois, do qual ele reproduziu toda uma cena de caça (ver as páginas 15 e 16 do álbum). Contudo, assim como acontecera no álbum anterior (e voltaria a acontecer no seguinte), as fontes utilizadas por Hergé não foram as melhores, e o resultado foi uma visão bastante estereotipada do povo africano.
No ano de estreia da história, a colônia belga na África continuava sendo explorada. Oitenta vezes maior que o país que o colonizava, o Congo tinha um subsolo extremamente rico. Nessa época, faltava mão-de-obra. Hergé, portanto, devia fazer uma propaganda deste país. O trabalho de propaganda, no entanto, não se restringia ao colonialismo. Especificamente na metade final do álbum, o que se vê é um enaltecimento do serviço missionário. A figura do católico que cuida dos colonos e se preocupa com o bem do próximo é reforçada quando o padre salva a vida do repórter duas vezes, sem ser atrapalhado pela idade ou pela batina. Com isso, criou-se um retrato favorável às ideias colonialistas da Bélgica: o inocente povo africano precisa ser "salvo" pelos sábios europeus.
O próprio Hergé confirmou o erro que cometera. Em entrevista concedida pouco antes de sua morte, o autor disse: "Da mesma maneira quando desenhei Tintim no País dos Sovietes, ao desenhar Tintim no Congo eu estava alimentado de preconceitos do meio burguês no qual vivia... Era 1930. Conhecia deste país apenas o que as pessoas contavam na época: 'os negros são grandes crianças, felizmente estamos lá!', etc. E desenhei os africanos de acordo com estes critérios, de puro espírito paternalista, que era o da época na Bélgica".
Curiosamente, "Tintim no Congo" é o álbum mais popular e apreciado do personagem na África.
Publicações
Sinopse
Tintim e Milu partem para a África a fim de realizar mais uma reportagem para o jornal Le Petit Vingtième. Os problemas já começam à bordo do navio, onde Milu troca farpas com um papagaio e encontra um passageiro clandestino. Porém, tais acidentes não impedem que os dois chegem ao seu destino, o Congo Belga, uma colônia africana rica em diamantes.
Em solo africano, o repórter e seu fiel fox-terrier são recepcionados por uma multidão de congoleses, que já conhecem sua fama internacional. Antes de começar sua aventura pelas selvas africanas, Tintim contrata Coquinho, um pequeno congolês que lhe serve como guia. Depois de caçar, enfrentar animais selvagens e interagir com os nativos, o rapaz é levado para a aldeia dos bakanas. Lá, o rei designa Tintim a participar da caça ao leão, mas é Milu quem vence o felino, arrancando-lhe um pedaço da cauda.
Enquanto a popularidade de Tintim cresce entre os nativos, Muganga, o feiticeiro da tribo, sente inveja, e por isso se junta ao criminoso Tom, o mesmo que viajava clandestinamente no navio, para dar um fim em Tintim. Sempre contando com a ajuda de Coquinho e Milu, o jovem repórter escapa de qualquer armadilha, e faz o povo saber a verdade sobre os bandidos. Nomeado novo chefe dos bakanas, Tintim resolve problemas e é aclamado pelo povo.
Depois de ser salvo por um missionário católico, Tintim dá aulas a meninos congoleses, que não sabem quanto é dois mais dois! Ele ainda volta a enfrentar outros animais ferozes, como um leopardo e um elefante, até chegar ao confronto final com Tom. Depois de descobrir quem está querendo lhe matar, o repórter é levado de volta para a Europa, e fica sabendo seu próximo destino: Chicago, EUA. Sem saber o que aconteceu com Tintim e Milu, os nativos choram a sua perda, imaginando - coitados - se os outros europeus serão iguais a ele...
Histórico
Depois do sucesso de Tintim no País dos Sovietes, não havia um caminho que não levasse Hergé a uma nova aventura de Tintim. E ele já planejava voos mais altos: levar o repórter aos Estados Unidos da América, para explorar o então popularíssimo Velho Oeste. Porém, influenciado pelo abade Norbert Wallez, diretor do semanário Le Vingtième Sciècle, o jovem cartunista começou a elaborar uma história em que o personagem apresentaria à juventude belga os valores do colonialismo.
A publicação da aventura de Tintim no país africano começou em 1930, quando o Congo ainda era uma colônia da Bélgica. Entre 1885 e 1907, o rei Leopoldo II explorou até o limite as riquezas naturais do território que, ironicamente, havia batizado como o Estado Livre do Congo. A extração da borracha resultou no extermínio de metade dos 20 milhões de congoleses existentes. Aquela ação desumana chamou a atenção do Parlamento da Bélgica e de outras nações civilizadas, que foram obrigados a intervir. Depois de mais de duas décadas de opressão, o paós se viu livre do domínio do terrível monarca, mas continuou sob a tutela do governo belga. Só há 50 anos o Congo Belga foi declarado livre, tornando-se o que é até hoje, a República Democrática do Congo.
Como nunca havia saído de sua terra natal, Hergé foi em busca de referências para retratar o Congo Belga. As principais bases conhecidas para o desenvolvimento do álbum foram os arquivos do Museu Colonial de Tervueren e o livro "Les silences du colonel Bramble", romance de sucesso de André Maurois, do qual ele reproduziu toda uma cena de caça (ver as páginas 15 e 16 do álbum). Contudo, assim como acontecera no álbum anterior (e voltaria a acontecer no seguinte), as fontes utilizadas por Hergé não foram as melhores, e o resultado foi uma visão bastante estereotipada do povo africano.
No ano de estreia da história, a colônia belga na África continuava sendo explorada. Oitenta vezes maior que o país que o colonizava, o Congo tinha um subsolo extremamente rico. Nessa época, faltava mão-de-obra. Hergé, portanto, devia fazer uma propaganda deste país. O trabalho de propaganda, no entanto, não se restringia ao colonialismo. Especificamente na metade final do álbum, o que se vê é um enaltecimento do serviço missionário. A figura do católico que cuida dos colonos e se preocupa com o bem do próximo é reforçada quando o padre salva a vida do repórter duas vezes, sem ser atrapalhado pela idade ou pela batina. Com isso, criou-se um retrato favorável às ideias colonialistas da Bélgica: o inocente povo africano precisa ser "salvo" pelos sábios europeus.
O próprio Hergé confirmou o erro que cometera. Em entrevista concedida pouco antes de sua morte, o autor disse: "Da mesma maneira quando desenhei Tintim no País dos Sovietes, ao desenhar Tintim no Congo eu estava alimentado de preconceitos do meio burguês no qual vivia... Era 1930. Conhecia deste país apenas o que as pessoas contavam na época: 'os negros são grandes crianças, felizmente estamos lá!', etc. E desenhei os africanos de acordo com estes critérios, de puro espírito paternalista, que era o da época na Bélgica".
Curiosamente, "Tintim no Congo" é o álbum mais popular e apreciado do personagem na África.
Publicações
A história foi publicada em páginas semanais de 5 de junho de 1930 a 11 de junho de 1931, no Le Petit Vingtième, suplemento info-juvenil do jornal Le Vingtième Siècle.Em
1931, foi publicada como pela primeira vez como álbum em
preto-e-branco. Com 120 páginas, o volume foi editado primeiramente
pelas Editions du Petit Vingtième. Em 1937, uma nova edição chegou às lojas. Agora com 112 páginas ainda em preto-e-branco, lançada pelas Editions Casterman, que a partir dali passaram a publicar os álbuns de Tintim com exclusividade.
Em
1946, Hergé publicou, também pela Casterman, uma nova edição do álbum,
agora totalmente redesenhada. Foi a primeira edição colorida, onde o
autor reduziu de mais de 100 para 62 páginas, um padrão que se manteve
nos álbuns a seguir. As modificações incluíram a melhora dos cenários, o
corte de algumas partes e alteração de diálogos para torná-los mais
vivos. Foi o máximo que Hergé conseguiu fazer para tentar diminuir a
ideologia colonialista sem alterar a história por completo.
Mas as polêmicas ao redor do álbum começaram cedo. Isso fez com que a
publicação em francês fosse interrompida em finais dos anos 1950, e o
livro passou mais de dez anos "enclausurado". Em uma carta datada de 26
de junho de 1963, Hergé implorava ao seu editor pela republicação do
álbum, ao menos na Europa. Ele alegava que seus personagens eram "negros
de fantasia", uma caricatura, assim como todos os personagens de sua
extensa obra. Seu clamor não foi imediatamente atendido, mas ganhou a
atenção dos fãs, incluindo jovens leitores africanos.
Ironicamente, a iniciativa para o retorno da publicação de "Tintim no Congo" partiu de uma revista do próprio Congo (àquela altura já independente, chamado Zaire). Em dezembro de 1969, o número 73 da revista Zaire fez diversos elogios à obra, estimulando sua republicação no mundo todo. O artigo defendia que, "se algumas caricaturas do povo congolês em Tintim no Congo fazem rir os brancos, eles fazem rir abertamente os congoleses, porque os congoleses encontram razões para isso na forma como o homem branco os via".
Ironicamente, a iniciativa para o retorno da publicação de "Tintim no Congo" partiu de uma revista do próprio Congo (àquela altura já independente, chamado Zaire). Em dezembro de 1969, o número 73 da revista Zaire fez diversos elogios à obra, estimulando sua republicação no mundo todo. O artigo defendia que, "se algumas caricaturas do povo congolês em Tintim no Congo fazem rir os brancos, eles fazem rir abertamente os congoleses, porque os congoleses encontram razões para isso na forma como o homem branco os via".
Após ter sido publicado em várias partes do mundo, o álbum chegou à
Escandinávia em 1970. Mas a cena da explosão de um rinoceronte chocou
tanto a editora Egmont que eles pediram a Hergé que fizesse uma
versão menos violenta do encontro com o animal. Esta versão da página 56
- veja a comparação abaixo - é a que está presente nas edições mais
atuais do álbum, incluindo a que foi lançada no Brasil em 2008 pela Cia das Letras.
Curiosidades
:: Apesar de o Congo Belga ter sido declarado
independente apenas em 1960, logo após a Segunda Guerra Mundial, em
1946, Hergé fez uma revisão do ábum, considerando que continha uma visão
demasiadamente “colonialista e paternalista”. Uma das modificações mais
notáveis aconteceu na cena que hoje aparece na página 36 do álbum:
enquanto na edição revisada Tintim dá aula de matemática a meninos
congoleses, na primeira edição, em preto-e-branco, a aula é de geografia
e, apontando para um mapa desenhado no quadro-negro, o repórter
declara: "Hoje vou lhes falar sobre vossa pátria: a Bélgica".
:: Quando foi publicada pela primeira vez em Portugal, na revista O
Papagaio, a história foi batizada de "Tim-Tim em Angola". A versão
portuguesa da aventura mostrava “Tim-Tim” como um repórter lusitano, ao
invés de belga, visitando não o Congo, mas a então colônia portuguesa de
Angola. Nesta versão, Milu foi rebatizado como Rom-Rom, e apresentado
como uma fêmea de pêlo amarelo.
Na versão mais recebte do álbum, os Dupondt fazem uma breve aparição no
primeiro quadrinho. Mas a verdadeira estreia dos detetives não foi em
"Tintim no Congo". Na versão em preto-e-branco, são outros personagens
que aparecem observando o embarque de Tintim.
Além de Dupond e Dupont, no primeiro quadrinho da página 1 aparem também Quim e Filipe (personagens de Hergé), Edgar P. Jacobs e Jacques Van Melkebeke (colaboradores de Hergé), além do próprio Georges Remi.
:: Apesar de não aparecer escrevendo nenhum artigo, neste álbum Tintim exerce a função de repórter. Entre seus instrumentos de trabalho está um fonógrafo e uma câmera filmadora, que lhe servirão para gravar um documentário.
:: Apesar de não aparecer escrevendo nenhum artigo, neste álbum Tintim exerce a função de repórter. Entre seus instrumentos de trabalho está um fonógrafo e uma câmera filmadora, que lhe servirão para gravar um documentário.
:: Menos de um mês depois do fim da publicação de "Tintim no Congo", o Le Petit Vingtième
organizou um evento semelhante ao ocorrido com o fim de "Tintim no País
dos Sovietes". Em 9 de julho de 1931, um garoto (Henri Dendoncker) e um
fox-terrier, acompanhados de
dez congoleses, representaram Tintim e Milu no retorno à Bélgica. Uma
multidão esteve presente à Gare du Nord, incluindo o próprio Hergé e
dois meninos trajados como Quim e Filipe.
Tintim no país dos sovietes
As Aventuras de Tintim, Repórter do Le Petit Vingtième, No País dos Sovietes
é o título da aventura que deu origem a um dos personagens mais
queridos da história dos quadrinhos. Escrita e desenhada pelo belga Hergé, a história foi originalmente publicada entre 10 de janeiro de 1929 e 8 de Maio de 1930, no suplemento infanto-juvenil Le Petit Vingtième.
Nesta primeira aventura, Tintim, já ao lado do inseparável Milu, é
apresentado como um jovem e corajoso repórter em viagem à Rússia
comunista.
Sinopse
Tintim, um repórter do Le Petit Vingtième, e seu cachorro Milu, são enviados em missão para a União Soviética. Partindo de Bruxelas, seu trem explode a caminho de Moscou por um agente secreto da polícia soviética, a OGPU. Ele sobrevive, mas é acusado pelas autoridades de Berlim pelo "acidente".
Preso e levado para uma câmara de tortura, Tintim consegue escapar e roubar um carro, passando por várias aventuras até finalmente chegar a Moscou. Entre outros absurdos, Tintim observa uma eleição onde as pessoas são obrigadas a votar no partido comunista, descobre que as fábricas supostamente produtivas são apenas uma farsa dos sovietes, e que as autoridades do país maltratam crianças famintas.
Preso por ajudar as vítimas da ditadura, ele consegue escapar mais uma vez e se depara com as riquezas que Stalin, Lenin e Trotsky roubam do povo soviético (incluindo trigo, vodka e caviar). Na tentativa de fugir da Rússia e denunciar aquelas barbaridades, Tintim enfrenta por uma última vez os agentes da OGPU. Finalmente retornando à Bélgica, o destemido repórter é recebido com grande pompa pelo público, que o aguarda na Grand Place de Bruxelas.
Em 1928, Hergé, então editor-chefe do Petit Vingtième, já pensava em criar um novo personagem de quadrinhos. A oportunidade surgiu quando Norbert Wallez, diretor do jornal, lhe encomendou uma história que envolvesse um adolescente e um cachorro. Wallez, um padre de ideologia direitista, queria um personagem que pudesse mostrar aos jovens belgas a situação da URSS e denunciar os males do comunismo. Hergé idealizou um repórter que viajaria para fazer suas matérias, e decidiu: "Para sua primeira viagem, a coisa que me pareceu mais importante na época era o país cujos ecos terríveis e muitas vezes contraditórios chegavam até nós, que era a Rússia soviética".
Nos primeiros dias de janeiro de 1929, o Vingtième Siècle publicou a ilustração de um jovem muito parecido com o já conhecido Totor, vestindo calças de golfe quadriculadas e acompanhado por um fox-terrier. No fundo, a silhueta de uma construção russa, e na legenda, a seguinte mensagem: “Acompanhem, a partir da próxima quinta-feira, as extraordinárias aventuras de Tintim, o repórter, e do seu cachorro, Milu, no País dos Sovietes”.
Poucos dias depois, em 10 de janeiro de 1929, começou a ser publicada a primeira de muitas aventuras do repórter Tintim e seu fiel cãozinho Milu. A cada semana o jornal publicava duas páginas, gerando uma história de 69 episódios.
A HQ fez tanto sucessos entre jovens e adultos da Bélgica que, para marcar sua conclusão, em 8 de Maio de 1930, o Petit Vingtième preparou um grande evento.
O jornal contratou Lucien Pepermans, um escoteiro de 15 anos, para representar a chegada do repórter a Bruxelas, e convidou os leitores por meio de um anúncio a comparecerem na Gare du Nord, às 16 horas.
A "chegada" de Tintim contou com uma grande multidão de fãs, além da presença de Hergé, que se reuniram no local anunciado para receber o herói que havia mostrado toda a “verdade” sobre o “milagre soviético”. A cena foi incluída no álbum, lançado naquele mesmo ano.
Propaganda Anticomunista
Os soviéticos tentavam passar para o mundo fora da Rússia uma imagem de potência em constante crescimento econômico - e de fato o era, segundo historiadores. Desmentir este fato se tornou um alvo particular de Hergé. Mas, como o desenhista nunca teve a oportunidade de visitar o país - e àquela altura não havia nenhuma possibilidade de fazer isso -, ele teve de se basear em informações de terceiros. Segundo Benoît Peeters, a única referência utilizada por Hergé foi o livro Moscou sans voiles (1928, Moscou sem véu, em livre tradução) de Joseph Douillet, ex-cônsul belga que viveu e trabalhou durante nove anos na Rússia soviética.
No livro, Douillet ataca duramente o comunismo e o governo soviético, e esse mesmo espírito crítico acaba ficando evidente no álbum. Sem outras fontes à disposição, Hergé chegou a reproduzir passagens inteiras do livro, como a cena das "eleições democráticas", onde os habitantes de uma aldeia são coagidos pelos soldados armados a votar no partido comunista.
Publicação
Tintim no País dos Sovietes foi publicado pela primeira vez como álbum em 1930. Apesar do sucesso, a insatisfação de Hergé com os detalhes negativos da obra o levou a retirá-la de circulação na década de 1930. Nos anos 1950, o autor continuava sem nenhum interesse na re-publicação do álbum, mas a editora Casterman o pressionou a autorizar novas reedições, para fazer frente às edições piratas que estavam surgindo. Só depois de muitos anos após a morte do autor, o álbum voltou a ser publicado orgulhosamente como o número um da coleção de Tintim.
Em 1973, foi lançada, como parte de Les Archives d'Hergé, uma edição fac-símile, que imediatamente se tornou um best-seller (100.000 exemplares vendidos só naquele ano). Já em 1999, no 70º aniversário da obra, a Casterman, com autorização da Fundação Hergé, publicou o álbum em preto e branco. Dessa forma, mesmo contra a vontade do já falecido Hergé, No País dos Sovietes entrou de vez no cânon oficial de Tintim.
Extraído do site: www.tintimportimtim.com
Sinopse
Tintim, um repórter do Le Petit Vingtième, e seu cachorro Milu, são enviados em missão para a União Soviética. Partindo de Bruxelas, seu trem explode a caminho de Moscou por um agente secreto da polícia soviética, a OGPU. Ele sobrevive, mas é acusado pelas autoridades de Berlim pelo "acidente".
Preso e levado para uma câmara de tortura, Tintim consegue escapar e roubar um carro, passando por várias aventuras até finalmente chegar a Moscou. Entre outros absurdos, Tintim observa uma eleição onde as pessoas são obrigadas a votar no partido comunista, descobre que as fábricas supostamente produtivas são apenas uma farsa dos sovietes, e que as autoridades do país maltratam crianças famintas.
Preso por ajudar as vítimas da ditadura, ele consegue escapar mais uma vez e se depara com as riquezas que Stalin, Lenin e Trotsky roubam do povo soviético (incluindo trigo, vodka e caviar). Na tentativa de fugir da Rússia e denunciar aquelas barbaridades, Tintim enfrenta por uma última vez os agentes da OGPU. Finalmente retornando à Bélgica, o destemido repórter é recebido com grande pompa pelo público, que o aguarda na Grand Place de Bruxelas.
Em 1928, Hergé, então editor-chefe do Petit Vingtième, já pensava em criar um novo personagem de quadrinhos. A oportunidade surgiu quando Norbert Wallez, diretor do jornal, lhe encomendou uma história que envolvesse um adolescente e um cachorro. Wallez, um padre de ideologia direitista, queria um personagem que pudesse mostrar aos jovens belgas a situação da URSS e denunciar os males do comunismo. Hergé idealizou um repórter que viajaria para fazer suas matérias, e decidiu: "Para sua primeira viagem, a coisa que me pareceu mais importante na época era o país cujos ecos terríveis e muitas vezes contraditórios chegavam até nós, que era a Rússia soviética".
Nos primeiros dias de janeiro de 1929, o Vingtième Siècle publicou a ilustração de um jovem muito parecido com o já conhecido Totor, vestindo calças de golfe quadriculadas e acompanhado por um fox-terrier. No fundo, a silhueta de uma construção russa, e na legenda, a seguinte mensagem: “Acompanhem, a partir da próxima quinta-feira, as extraordinárias aventuras de Tintim, o repórter, e do seu cachorro, Milu, no País dos Sovietes”.
Poucos dias depois, em 10 de janeiro de 1929, começou a ser publicada a primeira de muitas aventuras do repórter Tintim e seu fiel cãozinho Milu. A cada semana o jornal publicava duas páginas, gerando uma história de 69 episódios.
A HQ fez tanto sucessos entre jovens e adultos da Bélgica que, para marcar sua conclusão, em 8 de Maio de 1930, o Petit Vingtième preparou um grande evento.
O jornal contratou Lucien Pepermans, um escoteiro de 15 anos, para representar a chegada do repórter a Bruxelas, e convidou os leitores por meio de um anúncio a comparecerem na Gare du Nord, às 16 horas.
A "chegada" de Tintim contou com uma grande multidão de fãs, além da presença de Hergé, que se reuniram no local anunciado para receber o herói que havia mostrado toda a “verdade” sobre o “milagre soviético”. A cena foi incluída no álbum, lançado naquele mesmo ano.
Propaganda Anticomunista
Os soviéticos tentavam passar para o mundo fora da Rússia uma imagem de potência em constante crescimento econômico - e de fato o era, segundo historiadores. Desmentir este fato se tornou um alvo particular de Hergé. Mas, como o desenhista nunca teve a oportunidade de visitar o país - e àquela altura não havia nenhuma possibilidade de fazer isso -, ele teve de se basear em informações de terceiros. Segundo Benoît Peeters, a única referência utilizada por Hergé foi o livro Moscou sans voiles (1928, Moscou sem véu, em livre tradução) de Joseph Douillet, ex-cônsul belga que viveu e trabalhou durante nove anos na Rússia soviética.
No livro, Douillet ataca duramente o comunismo e o governo soviético, e esse mesmo espírito crítico acaba ficando evidente no álbum. Sem outras fontes à disposição, Hergé chegou a reproduzir passagens inteiras do livro, como a cena das "eleições democráticas", onde os habitantes de uma aldeia são coagidos pelos soldados armados a votar no partido comunista.
Publicação
Tintim no País dos Sovietes foi publicado pela primeira vez como álbum em 1930. Apesar do sucesso, a insatisfação de Hergé com os detalhes negativos da obra o levou a retirá-la de circulação na década de 1930. Nos anos 1950, o autor continuava sem nenhum interesse na re-publicação do álbum, mas a editora Casterman o pressionou a autorizar novas reedições, para fazer frente às edições piratas que estavam surgindo. Só depois de muitos anos após a morte do autor, o álbum voltou a ser publicado orgulhosamente como o número um da coleção de Tintim.
Em 1973, foi lançada, como parte de Les Archives d'Hergé, uma edição fac-símile, que imediatamente se tornou um best-seller (100.000 exemplares vendidos só naquele ano). Já em 1999, no 70º aniversário da obra, a Casterman, com autorização da Fundação Hergé, publicou o álbum em preto e branco. Dessa forma, mesmo contra a vontade do já falecido Hergé, No País dos Sovietes entrou de vez no cânon oficial de Tintim.
Extraído do site: www.tintimportimtim.com
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
O lado obscuro de Tintim nova produção de Steven Spielberg
O lado obscuro de Tintim
O lançamento mundial do filme Aventuras de Tintim, de Steven Spielberg, ressuscita antigos fantasmas do personagem criado por Hergé no final dos anos 1920
Extraído da Revista Aventuras na História.
por Cristine Kist / Ilustração: Glauco Diógenes | 28/11/2011 16h12
Nos 24 livros (um deles incompleto) lançados entre 1930 e 1986, Tintim retratou os conflitos do século 20 em passagens que, tanto hoje como na época, soavam politicamente incorretas. Em 5 décadas, Hergé colecionou processos, críticas, acusações e teve até de pedir desculpas pelas derrapadas de Tintim. As polêmicas continuaram após a morte do autor, em 1986, mas a série seguiu em alta e o filme reacende o interesse pelo personagem que ajudou a construir o retrato de um dos períodos mais turbulentos da história. As aventuras de Tintim começaram a ser publicadas quando Hergé virou editor do suplemento jovem do jornal Le Vingtième Siècle, de Bruxelas, na Bélgica. O quadrinista se baseou nos jornalistas mais famosos da época, enviados para cobrir grandes conflitos internacionais. Tintim trabalha para o próprio Le Petit Vingtième, como era chamado o suplemento, mas é o único jornalista do mundo que não parece preocupado com prazos ou com o envio de material para a redação.
Na sua primeira aparição, em 1929, ele viaja para a recém-fundada União Soviética. Na época com 22 anos, Hergé tinha ficado muito impressionado com um livro escrito pelo cônsul belga sobre as condições de trabalho no regime socialista e, por isso, optou pela URSS como destino. O país é retratado com grande exagero de estereótipos (ainda na 1ª página, Tintim diz ao chefe que enviará "cartões-postais, vodca e caviar", e Milu afirma ter ouvido falar que lá tem "pulgas" e "ratos"). Fica clara a postura anticomunista do autor. Mas, como o próprio Hergé comentou em entrevista a um programa de TV nos anos 1970, "Tintim no País dos Sovietes foi muito bem-recebido porque naquela época quase todo mundo era contra os bolcheviques".
Primeiras turbulências
Se a passagem pela URSS não trouxe grandes problemas, a 2ª viagem foi bem menos tranquila. Pelo menos para Hergé. Quando Tintim foi ao Congo, em 1931, o país africano ainda era uma colônia belga (a independência veio só em 1960) e os quadrinhos reproduziam a visão eurocentrista da época. Na 1ª versão do álbum, os congoleses falavam um francês primitivo e eram extremamente submissos. Em um dos trechos, Tintim substitui um professor em uma escola missionária e começa a aula apontando para um mapa da Europa: "Meus queridos amigos, hoje eu vou falar sobre o seu país: a Bélgica". Nas versões posteriores, o mapa foi substituído por um quadro negro, e a lição sobre a Bélgica por uma de matemática. Quando Hergé frequentava a escola (que ele odiava, por sinal), a suposta "condição inferior" dos negros ainda era ensinada como ciência pelos livros didáticos. Ele mesmo chegou a admitir em mais de uma oportunidade que o álbum retrata a visão ingênua da época.
Tiago Nogueira, editor da Companhia das Letras, que publica a série no Brasil, acha que o problema não é exclusivo desse livro: "Toda a série tem uma visão eurocentrista. É sempre a história do menino loiro desbravador que vai a países diferentes e leva conhecimento aos locais". Em 2007, um cidadão congolês pediu a um tribunal belga que Tintim no Congo fosse retirado do mercado. O processo ainda está correndo, e o resultado deve sair apenas em fevereiro do ano que vem. Mas até a ONG Peta, que defende os direitos dos animais, já se manifestou a favor de um boicote ao livro. Além de supostamente racista, Tintim também se mostra um grande fã de caçadas. Depois de atirar em veados (mata uma dúzia deles e diz que, "em todo caso, carne fresca é o que não vai faltar"), um jacaré e um elefante, mata e esfola um macaco para vestir sua pele. "Nós discutimos muito antes de publicar e, quando publicamos, optamos pela versão que já continha algumas modificações. Mas o fato é que é um clássico e representa a mentalidade de uma época", diz Nogueira.
Quando a Bélgica foi invadida pela Alemanha durante a 2ª Guerra, em 10 de maio de 1940, Hergé decidiu permanecer no país e passou a publicar as tirinhas de Tintim em um jornal que era controlado pelos nazistas. Daí para as acusações de que era simpatizante do regime alemão, foi um pulo. Mas a verdade é que ele próprio não se ajudou. Em A Estrela Misteriosa, álbum publicado justamente durante a ocupação, em 1942, duas personagens com características judaicas se perguntam se poderão dar calote em seus credores quando o fim do mundo é anunciado por um lunático (o trecho foi removido de edições posteriores). O grande vilão de A Estrela Misteriosa tinha um sobrenome judeu: Blumenstein. Hergé alegou que a escolha não tinha sido intencional e chegou a alterar o nome para Bohlwinkel. Infelizmente, só mais tarde alguém lembrou de avisar a Hergé que esse também era um sobrenome judeu. Com o fim da guerra, Hergé chegou a ser investigado pelo governo da Bélgica, mas foi inocentado. Ele ainda recebeu uma espécie de perdão público quando se uniu a um dos heróis da resistência belga, Raymond Leblanc, para a criação de uma revista sobre Tintim.
Simpatia pela China
A publicação de O Lótus Azul, 5º álbum da série, marcou uma virada na carreira de Hergé, como ele mesmo chegou a admitir em entrevistas: "Quando comecei, não tinha muita noção. Era só diversão para mim contar aquelas histórias". O Lótus Azul encerrou uma sequência de álbuns nos quais os países que serviam como cenário das narrativas eram retratados com base em estereótipos (depois dos russos comunistas e dos africanos abestalhados, Tintim ainda visitaria uma América ocupada quase somente por indígenas e mafiosos e uma Índia repleta de marajás). Hergé pareceu ter compreendido a dimensão do seu trabalho e pesquisou a fundo a cultura do país retratado - nesse caso, a China.
Depois de anunciar no final do 4º álbum, Os Cigarros do Faraó, que Tintim continuaria suas aventuras no Oriente, Hergé recebeu uma carta de um abade pedindo que pesquisasse sobre a história da China. Ele concordou, e o abade apresentou-o a Zhang Chongren, estudante chinês que passava uma temporada na Academia de Belas-Artes de Bruxelas. Os dois se entenderam tão bem que Chongren aparece como um dos persongens de O Lótus Azul: ele é Tchang, um garoto órfão que se torna amigo de Tintim depois de ser salvo por ele. Ainda durante a passagem pela China, Tintim visita uma casa de ópio e aparece chapado pela droga, uma versão mais branda da heroína. O álbum foi publicado em 1936, e as casas de ópio só foram fechadas pelo regime comunista de Mao Tsé-Tung, em 1949. Mas nem é preciso ir tão longe. Os detratores de Hergé condenam até a amizade de Tintim com o Capitão Haddock, um dos principais personagens da série. No começo, o capitão estava quase sempre bêbado e seria uma má influência para jovens leitores. O próprio Hergé acabou optando por transformá-lo com o tempo em um personagem de hábitos mais recatados. Até o que não aparece nas aventuras de Tintim causa polêmica.
Existe uma corrente que define Hergé como misógino, já que existe apenas uma personagem feminina que se destaca ao longo de todas as histórias: a espanhola Bianca Castafiore, uma soprano que adora cantar em momentos inapropriados. Hergé morreu em 1983, aos 75 anos. No processo movido na Bélgica pedindo o recolhimento de Tintim no Congo, quem luta a favor da obra é a editora francesa Casterman. No Brasil, a Companhia das Letras também defende a publicação do livro: "Não dá para limpar uma obra que foi escrita quando a mentalidade era diferente da nossa. Se isso fosse levado adiante, teríamos de repensar toda a literatura", diz Nogueira. Se as editoras se mantêm fiéis mesmo às obras mais controversas de Hergé, o mesmo não pode ser dito do próprio autor (e nem mesmo de seus fãs). "Ele não reeditou Tintim no País dos Sovietes por muito tempo porque considerava esse um trabalho inferior", explica Simon Doyle, responsável por um dos maiores sites dedicados a Tintim no mundo todo, o Tintinologist.org. "Talvez o mesmo possa ser feito com Tintim no Congo. Posso compreender a situação das vítimas de racismo e tenho que questionar o valor do livro hoje", afirma Doyle.
Marcadores:
China,
cinema,
Comunismo,
dicas de filme,
filme,
história contemporânea,
História da África,
imperialismo,
Tintim
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
O último samurai Cinema | Omelete
Duas coisas: qualquer fotógrafo mediano consegue extrair belíssimas imagens dos costumes e da cultura do Japão; não é preciso um grande contador de histórias para reviver a naturalmente esplendorosa mitologia dos samurais.
Dito isso, vamos a O último samurai (The last samurai , 2003). Dirigido por Edward Zwick (Lendas da paixão, Coragem sob fogo, Nova York sitiada), o filme tem em Tom Cruise o seu principal alicerce. Produtor e protagonista, o astro surge na tela como lhe melhor convém - em cenas de evidente esforço físico, em closes que valorizam as suas caras e bocas famosas, em planos de câmera lenta que focalizam a cabeleira milimetricamente desalinhada.
Cruise vive o oficial Nathan Algren, hoje garoto-propaganda nas espingardas Winchester, mas célebre por ter encampado com êxito a conquista do Oeste e a limpeza dos selvagens ameríndios. Viciado no álcool e no niilismo, Algren revive, a cada pesadelo, as memórias desses combates. Quando surge a oportunidade de liderar as novas tropas do Japão, ávido pela modernidade, contra os rebeldes tradicionalistas do país, o dinheiro fala mais alto. E de qualquer maneira, Algren não tinha mesmo nada melhor para fazer.
A missão consiste em introduzir os preceitos - e o maquinário bélico - ocidentais numa cultura dominada pelo uso das lâminas e das flechas. Eliminar Katsumoto (Ken Watanabe), líder dos insubordinados, tido como o último dos guerreiros milenares, é a grande chave para a vitória. Mas logo na primeira investida, os despreparados soldados de Algren são dizimados. O norte-americano é aprisionado por Katsumoto. Da vergonha da derrota nasce o seu verdadeiro contato com a integridade samurai.
A missão consiste em introduzir os preceitos - e o maquinário bélico - ocidentais numa cultura dominada pelo uso das lâminas e das flechas. Eliminar Katsumoto (Ken Watanabe), líder dos insubordinados, tido como o último dos guerreiros milenares, é a grande chave para a vitória. Mas logo na primeira investida, os despreparados soldados de Algren são dizimados. O norte-americano é aprisionado por Katsumoto. Da vergonha da derrota nasce o seu verdadeiro contato com a integridade samurai.
Fica fácil perceber, mesmo nessas poucas linhas, como o filme se desenrola, quais são os seus artifícios, qual a sua mensagem, como termina. Afinal, Zwick segue à risca a cartilha dos épicos, da lei dos mais fracos, da redenção do herói desacreditado, da autocrítica ao colonialismo brutal dos EUA. São temas universais, enfim, tratados de maneira consagrada, e ninguém espera grandes reviravoltas em tal contexto.
Na verdade, o diretor e o astro têm o mérito de realizar um trabalho competente, estética e narrativamente - o que já é um grande feito hollywoodiano. Zwick não é Tarantino, muito menos Kurosawa, mas sabe manejar as câmeras durante as batalhas e os duelos de espadas. E Cruise sabe abrir espaço para o verdadeiro herói da história, Katsumoto. Aliás, deve-se ao núcleo nipônico do elenco o sustento do filme durante os seus justos 150 minutos. Ademais, vale a máxima explícita lá em cima: seria incrível, inacreditável mesmo, se alguém conseguisse errar a mão num tema como esse.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Fotos Festival Teobaldo 2011 - Vícios na sociedade moderna 3B
Agradecimento aos alunos do 3B que se dedicaram e se empenharam na feitura e apresentação dos trabalhos.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
domingo, 30 de outubro de 2011
Movimento Ocupa Sampa: “A Veja não nos representa”
Extraído do Blog Lamparina Urbana
O grupo que ocupa o Vale do Anhangabaú desde o último dia 15 de
outubro para se manifestar contra o sistema político-econômico vigente
recebeu com indignação a matéria de capa da edição de 26 de outubro da
revista Veja. A matéria “Dez motivos para se indignar com a corrupção”
demonstra mais uma vez a tendência conservadora do conselho editorial do
grupo Abril, e sua prática de manipulação da informação pelo método de
omissão e ênfase. A manipulação de símbolos é flagrante, por exemplo com
o uso descontextualizado da imagem da máscara de Guido Fawkes, que se
tornou símbolo dos levantes anticapitalistas no mundo todo, visando
canalizar a insatisfação dos 99% da população para as pautas que
interessam ao privilegiado grupo econômico da qual a publicação é
porta-voz: o empresariado, sobretudo paulista.
É inegável que os movimentos autônomos que convergem em acampadas em
cidades como Belém, Salvador, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo,
em consonância com os levantes internacionais, condenam qualquer forma
de corrupção. Entretanto aquilo contra o qual lutamos é uma doença muito
maior, a corrupção é apenas um de seus desagradáveis sintomas (ver
Manifesto da ocupação paulista, em anexo). A revista Veja usa suas
páginas para atacar o Governo Federal e fazer “oposição” de Direita.
Combater a corrupção como se fosse causa e não consequência é alimentar o
mal ou, para dizer o mínimo, enxugar gelo. O sistema político vigente,
as regras do jogo em si, é que propiciam, senão incentivam práticas de
corrupção.
Mas para além do desvio de dinheiro público por debaixo dos panos,
existe outras formas de alocação de recursos públicos para interesses
privados, como no caso da construção da usina de Belo Monte, que terá
80% do seu custo de R$ 30 Bilhões bancado com dinheiro público, mesmo
que os únicos beneficiados com a obra sejam as empreiteiras e as
empresas estrangeiras que exploram o alumínio na região Norte. Apenas
10% desse alumínio fica no Brasil; quanto aos lucros, a maior parte fica
nas mãos dessas corporações transnacionais e de uma pequena elite
política brasileira. Sobram para os brasileiros apenas a conta para
pagar, e o sofrimento causado pelos impactos sociais e ambientais.
Outro modo de apropriação do Estado pelo interesse particular é a
aprovação de leis como o novo Código Florestal, que tem sido tocado como
o rolo compressor da bancada ruralista. O prejuízo ambiental será de
todos, uma vez que todos terão menos oxigênio, nascentes de rios e
biodiversidade. Enquanto os exportadores de soja, milho e cana, mais
dinheiro em suas contas.
As acampadas anticapitalistas como a ocupação do Viaduto do Chá
apelidada provisóriamente como Acampa Sampa contestam o sistema de
Democracia Representativa, por entender que o povo tem o direito de
participar diretamente da discussão e decisão políticas. Constatamos que
os políticos não nos representam. Uma vez eleitos, representam apenas a
seus próprios interesses e o daqueles que financiam suas campanhas.
Entretanto é importante notar que o que Veja propõe não é uma
transformação política que impeça tais práticas, mas ao contrário,
gostaria de ver os magnatas da indústria e comércio, marcadamente
associadas a PSDB e DEM no comando do Estado para arbitrar tanto quanto
as elites agrárias às quais o atual governo petista se aliou.
Essa postura é evidenciada pelo fato de que a revista dá voz à Fiesp,
mas não entrevistou sequer um dos participantes dos movimentos de
“indignados” das ocupações públicas. A revista, que dá ênfase à
corrupção no atual governo federal, não retoma os escândalos dos
governos passados e apresenta propostas extremamente neoliberais como
remédio para a corrupção. Veja chega colocar no mesmo balaio dos
corruptos, também aposentados, pensionistas e pessoas que recebem bolsas
do governo. O que Veja quer é defender a diminuição de gastos sociais e
a demissão de miliares de funcionários públicos e diminuir a carga
tributária paga por seus patrocinadores.
Veja tenta confundir o leitor, fazendo parecer que a sua luta
específica contra o Governo Dilma e a favor dos empresários é a luta dos
acampamentos de indignados. A Veja não nos representa. Nossa luta não é
simplesmente contra o governo Dilma. Nossa luta é contra o Capital e os
governos de um modo geral. Queremos a mudança do sistema e a transição
para uma sociedade em que todos tenham vez e voz. Nossa luta é também
contra os governos estaduais e municipais do bloco político sustentado
pelo grupo Abril.
Nossa luta por Democracia Real é também uma luta contra empresas de
comunicação manipuladoras do processo político, como a própria Veja.
Enquanto houver essa democracia indireta e o capitalismo selvagem,
haverá corrupção.
Não queremos um estado reduzido para ver o poder ainda mais
concentrado nas mãos de empresários. Queremos o poder nas mãos do povo, e
o povo plenamente livre, decidindo junto os destinos de suas
comunidades. É por isso que não concordamos com qualquer reforma
política que sirva para manter e aumentar o poder daqueles que já
concentram poder, queremos a transformação completa do sistema.
Discordamos também quando a revista afirma que o Brasil não está em
uma situação tão grave quanto a dos países europeus que enfrentam a
crise do capital. O que acontece é que o Brasil se acostumou com a crise
e com as suas gritantes contradições. Basta olhar a situação dos
sem-teto, dos sem-hospital, dos sem-escola, dos sem voz em nosso país
para ver que a situação do Brasil que cresce, cresce para poucos.
Chegamos a essa situação não simplesmente por causa da corrupção, mas
pela exploração do homem pelo homem que já dura mais de cinco séculos.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
A Guerra Civil Americana
Crime político à americana
O assassinato de Lincoln por um radical racista foi uma vingança pela derrota dos escravocratas do Sul na Guerra Civil americana
por José Chrispiniano
Comparada com a segurança atual em torno do
presidente dos Estados Unidos, o que impressiona na morte de Abraham
Lincoln foi a facilidade encontrada pelo seu assassino naquela
sexta-feira, 14 de abril de 1865.
John Wilkes Booth não teve qualquer dificuldade em alcançar o presidente no Teatro Ford, mesmo sendo público seu apoio aos confederados e o seu ódio pelo presidente.
Em 11 de abril, após assistir um discurso onde Lincoln defendeu o direito de voto aos ex-escravos, escreveu em seu diário: “Com nossa causa quase perdida, algo decisivo e grandioso tem de ser feito”.
John Wilkes Booth não teve qualquer dificuldade em alcançar o presidente no Teatro Ford, mesmo sendo público seu apoio aos confederados e o seu ódio pelo presidente.
Em 11 de abril, após assistir um discurso onde Lincoln defendeu o direito de voto aos ex-escravos, escreveu em seu diário: “Com nossa causa quase perdida, algo decisivo e grandioso tem de ser feito”.
A morte do presidente fazia parte de um plano
maior, que pretendia vingar o sul do país e estender a Guerra Civil
(1861-1865). Os conspiradores planejavam matar mais três pessoas naquela
noite: o vice-presidente Andrew Johnson, o secretário de Estado,
William Seward, e o secretário de Guerra, Edwin Stanton.
Apenas o atentado de Booth deu certo. Sua fuga com os comparsas John Surrat e David Herold durou 12 dias, até ele ser cercado e morto em um incêndio numa fazenda da Virgínia.
Após viver a vida inteira em teatros, Booth trouxe para o palco da história americana o assassinato político, que se tornaria tragicamente comum no século XX, com as mortes de John Kennedy, de seu irmão Robert, e dos líderes negros Martin Luther King e Malcom X. Certamente Booth não ficaria nada feliz com a possível eleição de Barack Obama como o primeiro negro a presidir os Estados Unidos.
Apenas o atentado de Booth deu certo. Sua fuga com os comparsas John Surrat e David Herold durou 12 dias, até ele ser cercado e morto em um incêndio numa fazenda da Virgínia.
Após viver a vida inteira em teatros, Booth trouxe para o palco da história americana o assassinato político, que se tornaria tragicamente comum no século XX, com as mortes de John Kennedy, de seu irmão Robert, e dos líderes negros Martin Luther King e Malcom X. Certamente Booth não ficaria nada feliz com a possível eleição de Barack Obama como o primeiro negro a presidir os Estados Unidos.
CHRISPINIANO, José. "Crime político à america". In: História Viva, n. 60, Outubro de 2008.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Robert Fisk: Um presidente que é incapaz de enfrentar a realidade do Oriente Médio
Publicado no site Viomundo em 23 de setembro de 2011 às 16:11
Robert Fisk: Obama fala aos marcianos
Robert Fisk: Um presidente que é incapaz de enfrentar a realidade do Oriente Médio
O discurso de Obama nas Nações Unidas insiste que israelenses e palestinos são parceiros iguais no conflito
Friday, 23 September 2011, no Independent
Hoje Mahmoud Abbas deveria viver seus melhores momentos. Mesmo o New York Times descobriu que “um homem cinza em ternos cinzas e sapatos sensíveis, pode estar lentamente emergindo de sua própria sombra”.
Mas isso é nonsense. O líder incolor da Autoridade Palestina, que escreveu um livro de 600 páginas sobre o conflito de seu povo com Israel sem mencionar uma só vez a palavra “ocupação”, não deveria ter dificuldades esta noite para fazer melhor que o discurso patético e humilhante de Barack Hussein Obama nas Nações Unidas, na quarta-feira, no qual ele entregou a política dos Estados Unidos no Oriente Médio ao governo engenhoso de Israel.
Para o presidente norte-americano que já pediu o fim da ocupação israelense de terras árabes, o fim do roubo de terras árabes na Cisjordânia — “assentamentos” israelenses é o que ele usava — e um estado palestino até 2011, a performance de Obama foi patética.
Como sempre, Hanan Ashrawi, a única voz palestina eloquente em Nova York esta semana, acertou. “Não pude acreditar no que ouvi”, ela disse ao Haaretz, o melhor dos jornais israelenses. “Soou como se os palestinos estivessem ocupando Israel. Não houve uma palavra de empatia com os palestinos. Ele falou apenas das dificuldades dos israelenses…” É bem verdade. E, como sempre, os mais sãos dos jornalistas israelenses, em sua condenação aberta de Obama, provaram que os príncipes do jornalismo norte-americano foram covardes. ” O claudicante, pouco imaginativo discurso que o presidente dos Estados Unidos fez nas Nações Unidas… reflete quanto o presidente norte-americano é incapaz de enfrentar a realidade do Oriente Médio”, escreveu Yael Sternhell.
E assim como os dias vão e vem, descobriremos se os palestinos vão responder à performance tíbia de Obama com uma terceira intifada ou com um dar de ombros de quem reconhece que sempre foi assim, que os fatos continuam a provar que o governo dos Estados Unidos permanece uma ferramenta de Israel, quando se trata da recusa de Israel em dar aos palestinos um estado.
Como é, perguntamos, que o embaixador dos Estados Unidos em Israel, Dan Shapiro, voou de Tel Aviv a Nova York para o debate sobre o estado palestino no mesmo avião que o primeiro-ministro israelense Netanyahu? Como é que Netanyahu estava muito ocupado batendo papo com o presidente colombiano em vez de ouvir o discurso de Obama? Ele apenas olhou de relance na parte do texto que mencionava os palestinos, quando estava ao vivo, face a face, com o presidente norte-americano. Isso não foi “chutzpah”. Foi insulto, puro e simples.
E Obama mereceu. Depois de elogiar a primavera/verão/outono árabe, seja lá o que for — mencionando os atos de coragem individual de tunisianos árabes e egípcios como se ele, Obama, tivesse estado por trás do Acordar Árabe o tempo todo, o homem se dignou a dar 10 minutos de seu tempo aos palestinos, esbofeteando-os por ousar pedir um estado nas Nações Unidas. Obama até sugeriu — e esta foi a parte mais engraçada de seu disparatado discurso nas Nações Unidas — que os palestinos e os israelenses eram dois “partidos” iguais no conflito.
Um marciano que ouvisse o discurso pensaria que, como sugeriu a srta. Ashrawi, os palestinos estão ocupando Israel em vez do contrário. Nenhuma menção da ocupação israelense, nenhuma menção de refugiados, do direito de retorno ou do roubo de terra árabe-palestina pelo governo israelense violando todas as leis internacionais. Mas Obama lamentou pelo povo cercado de Israel, pelos foguetes atirados contra suas casas, pelas bombas suicidas — pecados palestinos, naturalmente, mas nenhuma referência à carnificina de Gaza, às mortes massivas de palestinos — e mesmo pela perseguição histórica do povo judeu e pelo Holocauto.
A perseguição é um fato histórico. Assim é o maligno Holocausto. Mas OS PALESTINOS NÃO COMETERAM ESTES ATOS. Foram os europeus — cuja ajuda Obama agora busca para negar o estado aos palestinos — que cometerem esse crime dos crimes. E então voltamos ao trecho dos “partidos iguais”, como se os israelenses ocupantes e os palestinos ocupados estivessem em um mesmo campo.
Madeleine Albright adotava esta mentira abominável. “Cabe aos próprios partidos”, ela dizia, lavando as mãos, como Pilatos, das negociações, assim que Israel ameaçava chamar seus apoiadores nos Estados Unidos. Ninguém sabe se Mahmoud Abbas conseguirá produzir um discurso de 1940 nas Nações Unidas, hoje. Mas pelo menos já sabemos quem é o apaziguador
Tradução: Luiz Carlos Azenha
PS do Viomundo: Obama quer se reeleger. Para isso, precisa vencer em Ohio e na Flórida. Qualquer palavra de desafio às posições de Israel coloca em risco a vitória de Obama nos dois estados. Ou seja, é o instinto de sobrevivência…
Robert Fisk: Obama fala aos marcianos
Robert Fisk: Um presidente que é incapaz de enfrentar a realidade do Oriente Médio
O discurso de Obama nas Nações Unidas insiste que israelenses e palestinos são parceiros iguais no conflito
Friday, 23 September 2011, no Independent
Hoje Mahmoud Abbas deveria viver seus melhores momentos. Mesmo o New York Times descobriu que “um homem cinza em ternos cinzas e sapatos sensíveis, pode estar lentamente emergindo de sua própria sombra”.
Mas isso é nonsense. O líder incolor da Autoridade Palestina, que escreveu um livro de 600 páginas sobre o conflito de seu povo com Israel sem mencionar uma só vez a palavra “ocupação”, não deveria ter dificuldades esta noite para fazer melhor que o discurso patético e humilhante de Barack Hussein Obama nas Nações Unidas, na quarta-feira, no qual ele entregou a política dos Estados Unidos no Oriente Médio ao governo engenhoso de Israel.
Para o presidente norte-americano que já pediu o fim da ocupação israelense de terras árabes, o fim do roubo de terras árabes na Cisjordânia — “assentamentos” israelenses é o que ele usava — e um estado palestino até 2011, a performance de Obama foi patética.
Como sempre, Hanan Ashrawi, a única voz palestina eloquente em Nova York esta semana, acertou. “Não pude acreditar no que ouvi”, ela disse ao Haaretz, o melhor dos jornais israelenses. “Soou como se os palestinos estivessem ocupando Israel. Não houve uma palavra de empatia com os palestinos. Ele falou apenas das dificuldades dos israelenses…” É bem verdade. E, como sempre, os mais sãos dos jornalistas israelenses, em sua condenação aberta de Obama, provaram que os príncipes do jornalismo norte-americano foram covardes. ” O claudicante, pouco imaginativo discurso que o presidente dos Estados Unidos fez nas Nações Unidas… reflete quanto o presidente norte-americano é incapaz de enfrentar a realidade do Oriente Médio”, escreveu Yael Sternhell.
E assim como os dias vão e vem, descobriremos se os palestinos vão responder à performance tíbia de Obama com uma terceira intifada ou com um dar de ombros de quem reconhece que sempre foi assim, que os fatos continuam a provar que o governo dos Estados Unidos permanece uma ferramenta de Israel, quando se trata da recusa de Israel em dar aos palestinos um estado.
Como é, perguntamos, que o embaixador dos Estados Unidos em Israel, Dan Shapiro, voou de Tel Aviv a Nova York para o debate sobre o estado palestino no mesmo avião que o primeiro-ministro israelense Netanyahu? Como é que Netanyahu estava muito ocupado batendo papo com o presidente colombiano em vez de ouvir o discurso de Obama? Ele apenas olhou de relance na parte do texto que mencionava os palestinos, quando estava ao vivo, face a face, com o presidente norte-americano. Isso não foi “chutzpah”. Foi insulto, puro e simples.
E Obama mereceu. Depois de elogiar a primavera/verão/outono árabe, seja lá o que for — mencionando os atos de coragem individual de tunisianos árabes e egípcios como se ele, Obama, tivesse estado por trás do Acordar Árabe o tempo todo, o homem se dignou a dar 10 minutos de seu tempo aos palestinos, esbofeteando-os por ousar pedir um estado nas Nações Unidas. Obama até sugeriu — e esta foi a parte mais engraçada de seu disparatado discurso nas Nações Unidas — que os palestinos e os israelenses eram dois “partidos” iguais no conflito.
Um marciano que ouvisse o discurso pensaria que, como sugeriu a srta. Ashrawi, os palestinos estão ocupando Israel em vez do contrário. Nenhuma menção da ocupação israelense, nenhuma menção de refugiados, do direito de retorno ou do roubo de terra árabe-palestina pelo governo israelense violando todas as leis internacionais. Mas Obama lamentou pelo povo cercado de Israel, pelos foguetes atirados contra suas casas, pelas bombas suicidas — pecados palestinos, naturalmente, mas nenhuma referência à carnificina de Gaza, às mortes massivas de palestinos — e mesmo pela perseguição histórica do povo judeu e pelo Holocauto.
A perseguição é um fato histórico. Assim é o maligno Holocausto. Mas OS PALESTINOS NÃO COMETERAM ESTES ATOS. Foram os europeus — cuja ajuda Obama agora busca para negar o estado aos palestinos — que cometerem esse crime dos crimes. E então voltamos ao trecho dos “partidos iguais”, como se os israelenses ocupantes e os palestinos ocupados estivessem em um mesmo campo.
Madeleine Albright adotava esta mentira abominável. “Cabe aos próprios partidos”, ela dizia, lavando as mãos, como Pilatos, das negociações, assim que Israel ameaçava chamar seus apoiadores nos Estados Unidos. Ninguém sabe se Mahmoud Abbas conseguirá produzir um discurso de 1940 nas Nações Unidas, hoje. Mas pelo menos já sabemos quem é o apaziguador
Tradução: Luiz Carlos Azenha
PS do Viomundo: Obama quer se reeleger. Para isso, precisa vencer em Ohio e na Flórida. Qualquer palavra de desafio às posições de Israel coloca em risco a vitória de Obama nos dois estados. Ou seja, é o instinto de sobrevivência…
Marcadores:
Guerra ao Terror,
história contemporânea,
história do presente,
Israel,
Obama,
Oriente,
Oriente Médio,
Palestina,
palestinos,
Robert Fisk
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Larry Crowne e a crise americana
Um aparente filme singelo de comédia romântica capitaniado pelos ícones americanos Julia Roberts e Tom Hanks me surpreendeu bastante. Uma esposa cansada do marido viciado em internet e um sujeito que mantém um emprego por anos sem preocupação em ampliar seus estudos formais, ou seja, frequentar uma faculdade, são unidos por situações de crise.
Um dos primeiros filmes que vejo tentando lidar com a atual decadência do Império Americanos. Larry Crowne (Tom Hanks), despedido da loja de dapartamento em que trabalhava a anos, sem nenhum tipo de ascensão na carreira, se depara com uma nova realidade. "É preciso se qualificar", como diriam os empresários capitalistas exploradores de plantão.
É por esse motivo que Crowne, vai acabar "caindo" na aula de oratória ministrada pela professora Mercedes Tainot, papel de Julia Roberts. Como toda boa comédia romântica, os dois se envolvem por meio de situações ao acaso, mas o que vale observar no filme é exatamente o elemento da crise sempre presente, parece que não há mais como escodê-la. O jeito é trocar o carrão Toyota pela Lambreta, como faz Larry gerando as situações mais engraçadas do filme.
Um dos primeiros filmes que vejo tentando lidar com a atual decadência do Império Americanos. Larry Crowne (Tom Hanks), despedido da loja de dapartamento em que trabalhava a anos, sem nenhum tipo de ascensão na carreira, se depara com uma nova realidade. "É preciso se qualificar", como diriam os empresários capitalistas exploradores de plantão.
É por esse motivo que Crowne, vai acabar "caindo" na aula de oratória ministrada pela professora Mercedes Tainot, papel de Julia Roberts. Como toda boa comédia romântica, os dois se envolvem por meio de situações ao acaso, mas o que vale observar no filme é exatamente o elemento da crise sempre presente, parece que não há mais como escodê-la. O jeito é trocar o carrão Toyota pela Lambreta, como faz Larry gerando as situações mais engraçadas do filme.
Marcadores:
Atualidades,
cinema,
crise americana,
filme,
Guerra ao Terror,
história contemporânea,
Julia Roberts,
Larry Crowne,
Tom Hanks
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Pearl Jam - Do the evolution (Legendado em Português)
Interessante críticas as opções históricas da humanidade.
Marcadores:
Do the evolution,
evolução,
história contemporânea,
história da humanidade,
música,
Pearl Jam,
progresso,
rock,
tradução
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Revolucionário ou visionário?
Seres humanos como Che Guevara nascem com um ideal, perseguem-no até o fim e buscam a melhor maneira de realizá-lo. Ambição, fraternidade, espírito de coletividade, não importa o nome que se dê a essa trajetória de vitórias.
CRIAÇÃO E FORMAÇÃO
Ernesto Rafael Guevara de La Serna nasceu em 14 de junho de 1928 na cidade de Rosário, Argentina. Ainda pequeno, sua família mudou-se para o campo, em uma região próxima à cidade de Córdoba, devido ao problema de asma que desenvolvera. Ao longo de sua vida, Che Guevara sempre se dedicou aos estudos e à leitura, hábito que aprendeu desde cedo com seus pais, já se aprofundando nas teorias socialistas e em livros de autores como Marx, Engels e Lênin. Sua mãe, Célia de La Serna y Llosa, descendia do último vice-rei do Peru, família de origem aristocrática e dona de muitos lotes de terras. Já seu pai, Ernesto Lynch, era estudante de arquitetura. Começou a trabalhar com 14 anos, sem largar seus estudos. Sua adolescência é fortemente marcada pela Guerra Civil Espanhola e, logo depois, pela Segunda Guerra Mundial, época em que seu pai forma uma organização antifascista, a "Ação Argentina", na qual inscreve seu filho.
No colégio, destaca-se por ser um ótimo aluno em Ciências Humanas, como Literatura e Filosofia, e também exímio jogador de xadrez, brilhando nos tabuleiros da Olimpíada Universitária de 1948. Em 1946, conclui seus estudos, partindo com a família para Buenos Aires. Escolhe como graduação a Medicina, e com 18 anos alista-se no serviço militar obrigatório, sendo dispensado por seu problema de asma, fato considerado positivo, já que sua família era antiperonista. Em 1951 começa uma viagem de motocicleta com seu amigo Alberto Granado, que marcaria sua vida para sempre. Durante oito meses, os dois amigos percorreram cinco países da América Latina, visitando regiões carentes como, por exemplo, minas de cobre, povoados indígenas e leprosários.
Nessa viagem, Che conhece a real situação política, social e econômica dos países e regiões vizinhas, marcando definitivamente sua ruptura com todos os laços nacionais. Para pagar as despesas da viagem, trabalharam como carregadores, lavadores de pratos, marinheiros e médicos. Ao retornar para casa, escreve em seu "Diário de Viagem" - que deu origem ao livro publicado em 1970 Já não sou mais o mesmo. Nesse diário, que gerou um grande boom editorial, podemos notar sua crescente politização e o choque que lhe provocaram a pobreza, a injustiça e a arbitrariedade encontradas pelo caminho. Decide voltar a Buenos Aires em agosto de 1952 para concluir seus estudos, formando-se em Medicina pela Universidade Nacional de Buenos Aires, posteriormente se especializando com pós-doutorado em alergia.
A luta armada de Che Guevara contra o regime ditatorial de Cuba, instalado desde 1952, começa no México. Ele se inscreve em setembro, dois meses após o alistamento de Fidel. Em 1957, o grupo se instala em Sierra Maestra com o intuito de derrubar o governo de Fulgencio Batista, apoiado pelos Estados Unidos
EM BUSCA DE SEUS IDEAIS
Um mês após a conclusão de seus estudos na universidade, Che Guevara viaja para países como Bolívia, Peru, Panamá, Colômbia, Equador, Costa Rica, El Salvador e Guatemala na companhia de outro amigo, Calica Ferre. Ele vai trabalhar nessas regiões com o objetivo de achar a cura para a sua doença, a asma. Na Bolívia, reencontra o amigo Granado e é apresentado ao advogado, também argentino, Ricardo Rojo, refugiado naquele país por sua atividade política antiperonista. Rojo lhe propõe que vá com ele a Guatemala lutar em conjunto com a Revolução Social. Durante as cinco semanas em que ficou em La Paz, Che estuda os intentos de reforma agrária e vê o país viver seu primeiro ano do governo reformista de paz. Segundo os biógrafos, esse tempo é considerado vital para o amadurecimento do revolucionário, pois é por meio desses estudos que ele fixa seu direcionamento idealista. Em 1953, desembarca na Guatemala com Rojo e o dr. Eduardo Garcia, também exilado argentino. Juntos, buscavam formar um grupo armado de resistência contra a invasão norte-americana.
Ao passar pela Costa Rica, onde faz contatos políticos, Che conhece em San José dois cubanos exilados que haviam escapado da célebre tentativa de tomada do Quartel Moncada, em 26 de julho de 1953, Calixto García e Severino Rossel. Forte admirador do idealismo da União Soviética, aos 26 anos busca inscreverse em qualquer partido comunista, de qualquer país, enquanto trabalha como médico para sindicatos guatemaltecos. Na Guatemala ainda, Ernesto Guevara conhece Hilda Gadea, marxista convicta e militante política peruana. Casa-se com ela, já grávida, em agosto de 1955 e decidem morar no México, fugidos de perseguições políticas. Lá, Che começa a ganhar a vida fotografando turistas nas ruas da capital. Posteriormente, é contratado por uma agência de notícias da Argentina para cobrir os Jogos Pan-Americanos de 1955, e em conjunto com a profissão, passa a escrever artigos científicos sobre sua especialidade: a alergia. Em junho do mesmo ano, é apresentado a Raúl Castro, líder estudantil cubano, e a seu irmão, Fidel Castro, ambos recém-saídos da prisão em Cuba, onde passaram um ano e dez meses presos na ilha de Pinos, pela invasão do Quartel Moncada.
LUTA ARMADA
A luta armada de Che Guevara contra o regime ditatorial de Cuba, instalado desde 1952, começa no México. Ele se inscreve em setembro, dois meses após o alistamento de Fidel. Em 1957, o grupo se instala em Sierra Maestra com o intuito de derrubar o governo de Fulgencio Batista, apoiado pelos Estados Unidos, e instaurar o ideário socialista na ilha. Che Guevara torna-se membro do governo cubano de Fidel Castro após a tomada do poder pelos revolucionários em 1959, exercendo as funções de embaixador, presidente do Banco Nacional e Ministro da Indústria. Quando Fidel tenta diminuir o domínio norte-americano sobre a economia cubana, as relações de Cuba com os EUA ficam mais tensas. Em abril de 1961, a CIA invade Cuba com um exército de mercenários e refugiados cubanos. Essa invasão à Baía dos Porcos resulta num fracasso total.
O governo norte-americano tenta de todas as formas reassumir seu controle no país e até estabelece um embargo econômico na tentativa de acabar com a Revolução. Mas com a ajuda da URSS, nada disso concretizou-se, e Cuba conquistou um forte aliado para a sua proteção. A partir desses fatos, Cuba declara-se socialista e aliada da URSS, travando uma séria batalha contra a superpotência dos EUA. Em 11 de dezembro de 1964, Che Guevara discursa na ONU, onde oferece o apoio de Cuba para as lutas de libertação no terceiro mundo. Mas como bom revolucionário, não aguentava ficar trancafiado num escritório, e logo partiu para a África, onde ficou ciente do movimento de libertação nacional dos africanos, passando a lutar com eles. Ernesto Guevara realizou diversos trabalhos durante sua carreira política, dentre eles: representante cubano em viagens a países afro-asiáticos e socialistas, como Checoslováquia, URSS e China popular; presidente da delegação cubana na Conferência de Punta del Este e do seminário de planificação de Argel. Após uma estada no Congo, como instrutor das guerrilhas de Sumialot e Mulele, em setembro de 1966 Che chega à Bolívia para estabelecer um centro de treinamento de guerrilha.
Um mês após a conclusão de seus estudos na universidade, Che Guevara viaja para países como Bolívia, Peru, Panamá, Colômbia, Equador, Costa Rica, El Salvador e Guatemala para trabalhar nessas regiões com o objetivo de achar a cura para a sua doença, a asma
Esse centro havia sido criado para servir de quartel-general, tanto para revolucionários bolivianos quanto para aqueles que iriam chefiar revoluções em países vizinhos. Entretanto, alguns desentendimentos entre o Partido Comunista Boliviano e a guerrilha fizeram que a união e o trato entre eles se dissolvessem, deixando assim o Guevara e seus homens completamente isolados. Em 8 de outubro de 1967 é capturado por oficiais bolivianos patrocinados pela CIA, na selva de La Higuera (Bolívia), e no dia seguinte é executado.
Revista de Sociologia número 36
CRIAÇÃO E FORMAÇÃO
Ernesto Rafael Guevara de La Serna nasceu em 14 de junho de 1928 na cidade de Rosário, Argentina. Ainda pequeno, sua família mudou-se para o campo, em uma região próxima à cidade de Córdoba, devido ao problema de asma que desenvolvera. Ao longo de sua vida, Che Guevara sempre se dedicou aos estudos e à leitura, hábito que aprendeu desde cedo com seus pais, já se aprofundando nas teorias socialistas e em livros de autores como Marx, Engels e Lênin. Sua mãe, Célia de La Serna y Llosa, descendia do último vice-rei do Peru, família de origem aristocrática e dona de muitos lotes de terras. Já seu pai, Ernesto Lynch, era estudante de arquitetura. Começou a trabalhar com 14 anos, sem largar seus estudos. Sua adolescência é fortemente marcada pela Guerra Civil Espanhola e, logo depois, pela Segunda Guerra Mundial, época em que seu pai forma uma organização antifascista, a "Ação Argentina", na qual inscreve seu filho.
No colégio, destaca-se por ser um ótimo aluno em Ciências Humanas, como Literatura e Filosofia, e também exímio jogador de xadrez, brilhando nos tabuleiros da Olimpíada Universitária de 1948. Em 1946, conclui seus estudos, partindo com a família para Buenos Aires. Escolhe como graduação a Medicina, e com 18 anos alista-se no serviço militar obrigatório, sendo dispensado por seu problema de asma, fato considerado positivo, já que sua família era antiperonista. Em 1951 começa uma viagem de motocicleta com seu amigo Alberto Granado, que marcaria sua vida para sempre. Durante oito meses, os dois amigos percorreram cinco países da América Latina, visitando regiões carentes como, por exemplo, minas de cobre, povoados indígenas e leprosários.
Nessa viagem, Che conhece a real situação política, social e econômica dos países e regiões vizinhas, marcando definitivamente sua ruptura com todos os laços nacionais. Para pagar as despesas da viagem, trabalharam como carregadores, lavadores de pratos, marinheiros e médicos. Ao retornar para casa, escreve em seu "Diário de Viagem" - que deu origem ao livro publicado em 1970 Já não sou mais o mesmo. Nesse diário, que gerou um grande boom editorial, podemos notar sua crescente politização e o choque que lhe provocaram a pobreza, a injustiça e a arbitrariedade encontradas pelo caminho. Decide voltar a Buenos Aires em agosto de 1952 para concluir seus estudos, formando-se em Medicina pela Universidade Nacional de Buenos Aires, posteriormente se especializando com pós-doutorado em alergia.
A luta armada de Che Guevara contra o regime ditatorial de Cuba, instalado desde 1952, começa no México. Ele se inscreve em setembro, dois meses após o alistamento de Fidel. Em 1957, o grupo se instala em Sierra Maestra com o intuito de derrubar o governo de Fulgencio Batista, apoiado pelos Estados Unidos
EM BUSCA DE SEUS IDEAIS
Um mês após a conclusão de seus estudos na universidade, Che Guevara viaja para países como Bolívia, Peru, Panamá, Colômbia, Equador, Costa Rica, El Salvador e Guatemala na companhia de outro amigo, Calica Ferre. Ele vai trabalhar nessas regiões com o objetivo de achar a cura para a sua doença, a asma. Na Bolívia, reencontra o amigo Granado e é apresentado ao advogado, também argentino, Ricardo Rojo, refugiado naquele país por sua atividade política antiperonista. Rojo lhe propõe que vá com ele a Guatemala lutar em conjunto com a Revolução Social. Durante as cinco semanas em que ficou em La Paz, Che estuda os intentos de reforma agrária e vê o país viver seu primeiro ano do governo reformista de paz. Segundo os biógrafos, esse tempo é considerado vital para o amadurecimento do revolucionário, pois é por meio desses estudos que ele fixa seu direcionamento idealista. Em 1953, desembarca na Guatemala com Rojo e o dr. Eduardo Garcia, também exilado argentino. Juntos, buscavam formar um grupo armado de resistência contra a invasão norte-americana.
Ao passar pela Costa Rica, onde faz contatos políticos, Che conhece em San José dois cubanos exilados que haviam escapado da célebre tentativa de tomada do Quartel Moncada, em 26 de julho de 1953, Calixto García e Severino Rossel. Forte admirador do idealismo da União Soviética, aos 26 anos busca inscreverse em qualquer partido comunista, de qualquer país, enquanto trabalha como médico para sindicatos guatemaltecos. Na Guatemala ainda, Ernesto Guevara conhece Hilda Gadea, marxista convicta e militante política peruana. Casa-se com ela, já grávida, em agosto de 1955 e decidem morar no México, fugidos de perseguições políticas. Lá, Che começa a ganhar a vida fotografando turistas nas ruas da capital. Posteriormente, é contratado por uma agência de notícias da Argentina para cobrir os Jogos Pan-Americanos de 1955, e em conjunto com a profissão, passa a escrever artigos científicos sobre sua especialidade: a alergia. Em junho do mesmo ano, é apresentado a Raúl Castro, líder estudantil cubano, e a seu irmão, Fidel Castro, ambos recém-saídos da prisão em Cuba, onde passaram um ano e dez meses presos na ilha de Pinos, pela invasão do Quartel Moncada.
LUTA ARMADA
A luta armada de Che Guevara contra o regime ditatorial de Cuba, instalado desde 1952, começa no México. Ele se inscreve em setembro, dois meses após o alistamento de Fidel. Em 1957, o grupo se instala em Sierra Maestra com o intuito de derrubar o governo de Fulgencio Batista, apoiado pelos Estados Unidos, e instaurar o ideário socialista na ilha. Che Guevara torna-se membro do governo cubano de Fidel Castro após a tomada do poder pelos revolucionários em 1959, exercendo as funções de embaixador, presidente do Banco Nacional e Ministro da Indústria. Quando Fidel tenta diminuir o domínio norte-americano sobre a economia cubana, as relações de Cuba com os EUA ficam mais tensas. Em abril de 1961, a CIA invade Cuba com um exército de mercenários e refugiados cubanos. Essa invasão à Baía dos Porcos resulta num fracasso total.
O governo norte-americano tenta de todas as formas reassumir seu controle no país e até estabelece um embargo econômico na tentativa de acabar com a Revolução. Mas com a ajuda da URSS, nada disso concretizou-se, e Cuba conquistou um forte aliado para a sua proteção. A partir desses fatos, Cuba declara-se socialista e aliada da URSS, travando uma séria batalha contra a superpotência dos EUA. Em 11 de dezembro de 1964, Che Guevara discursa na ONU, onde oferece o apoio de Cuba para as lutas de libertação no terceiro mundo. Mas como bom revolucionário, não aguentava ficar trancafiado num escritório, e logo partiu para a África, onde ficou ciente do movimento de libertação nacional dos africanos, passando a lutar com eles. Ernesto Guevara realizou diversos trabalhos durante sua carreira política, dentre eles: representante cubano em viagens a países afro-asiáticos e socialistas, como Checoslováquia, URSS e China popular; presidente da delegação cubana na Conferência de Punta del Este e do seminário de planificação de Argel. Após uma estada no Congo, como instrutor das guerrilhas de Sumialot e Mulele, em setembro de 1966 Che chega à Bolívia para estabelecer um centro de treinamento de guerrilha.
Um mês após a conclusão de seus estudos na universidade, Che Guevara viaja para países como Bolívia, Peru, Panamá, Colômbia, Equador, Costa Rica, El Salvador e Guatemala para trabalhar nessas regiões com o objetivo de achar a cura para a sua doença, a asma
Esse centro havia sido criado para servir de quartel-general, tanto para revolucionários bolivianos quanto para aqueles que iriam chefiar revoluções em países vizinhos. Entretanto, alguns desentendimentos entre o Partido Comunista Boliviano e a guerrilha fizeram que a união e o trato entre eles se dissolvessem, deixando assim o Guevara e seus homens completamente isolados. Em 8 de outubro de 1967 é capturado por oficiais bolivianos patrocinados pela CIA, na selva de La Higuera (Bolívia), e no dia seguinte é executado.
Revista de Sociologia número 36
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
O Planeta do Macacos
“O homem é uma praga!”
Houve uma época para o cinema americano em que trabalhar com ficções-científicas não se tratava apenas de inventar histórias grandiosas ou jogar na tela efeitos especiais impactantes, embora isso também pudesse ocorrer. A origem desse gênero na literatura, por exemplo, visava algo muito maior do que apenas atrair um público sedento por teorias conspiratórias. A grande sacada na hora de criar uma trama em volta desse estilo era o poder ilimitado que o autor adquiria em um mundo onde ele mesmo podia inventar as regras. Afinal, gêneros como ficção-científica e fantasia permitem ao criador fazer o que bem entender sem se preocupar com a lógica da realidade e, mais importante de tudo, transmitir o que bem entender. No caso de diretores e roteiristas, ter esse poder era essencial na hora conseguir driblar a censura e expor em suas obras uma mensagem de impacto não apenas visual. Ciente disso, Franklin J. Schaffner e seu famoso Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, 1968) vieram não apenas para abalar o cinema no sentido puramente comercial, mas também para usar sua arte em prol de algo muito maior – criticar ferozmente o ser humano e a guerra.
Rodado em 1968 em plena Guerra Fria, Planeta dos Macacos tinha um objetivo bem claro para seus autores, mas não para o público em geral. Adaptado da obra homônima do francês Pierre Boulle, o roteiro foi quase que inteiramente montado a partir de idéias bem pesadas e um tanto fora de foco para a proposta do cinema que começava a emergir no fim da década de 1960. Os efeitos visuais, a ação e a inventividade ganhavam força das idéias propagadas pelas corridas armamentistas e espaciais, e agora para um filme fazer sucesso comercial era inteiramente necessário o uso desses recursos. Foi então que a ficção-científica ganhou um espaço diferente e maior entre as produções americanas. Saindo do terreno das premissas trash de monstros descontrolados e explosões nucleares (influências da Segunda Guerra), o gênero passava a se enveredar pelo espaço sideral e pelas guerras nas estrelas. Tudo era ainda muito novo e empolgante, e Planeta dos Macacos deu o tiro de largada para as idéias estourarem, influenciando uma onda de novos cineastas que viriam a usar e abusar delas (entre eles um tal de George Lucas).
O que ninguém conseguiu perceber em um primeiro momento foi a intenção por trás de tudo isso. Sim, havia muito efeito especial para agradar o público, mas sua força se encontrava em outros atributos. Não perdendo a oportunidade de simplesmente detonar a imagem de herói do governo americano, Schaffner alcançou um sucesso comercial enorme através de uma obra que ia contra tudo aquilo que era pregado pela política estadunidense. Debaixo do nariz de sua própria nação, ele criticava não apenas as guerras, mas também a irracionalidade que havia por trás delas no ser humano. Em um filme intitulado de Planeta dos Macacos, é a raça humana que ganha um destaque maior, e não à toa.
Mas o que há de tão feroz por trás de uma aparentemente comum diversão? Logo na sinopse podemos descobrir um primeiro indício. Tudo gira em torno de um grupo de astronautas que acaba aterrissando em um planeta desconhecido, no ano de 3978, habitado por macacos inteligentes que escravizam e fazem experimentos com seres da raça humana. Dos três tripulantes, apenas um consegue escapar das garras destes símios e agora tem a difícil missão de descobrir que lugar é aquele exatamente e que segredo está por trás de tudo aquilo.
Para começar, temos uma situação no mínimo estranha. Os animais sendo retratados como civilizados, enquanto o homem é mostrado como um bicho irracional a ser analisado é algo que nos faz pensar. Depois, temos a reação dos personagens terráqueos diante de uma tão bem estruturada sociedade, regida por símios de inteligência muito acima do comum. Antes da aterrissagem, o protagonista Taylor (Charlton Heston) já se mostra preocupado com sua própria raça – “acredito que em algum lugar do universo deve haver algo melhor que o homem”, diz ele – e a princípio fica pasmo com a disciplina e civilidade que encontra em novas terras. Que surpresa é quando percebe ser uma ameaça para aqueles primatas, que aparentemente escondem um segredo muito importante que pode ser desvendado por ele.
Os momentos de tensão são constantes, o que talvez realce a seriedade que se encontra na mensagem latente nas entrelinhas. Os ângulos pelos quais Schaffner posiciona sua câmera são tão assimétricos que acabam contribuindo para estabelecer uma sensação de perdição e caos no espectador, facilitando assim uma empatia com o protagonista igualmente confuso. Aos poucos o diretor vai endireitando sua câmera, na mesma medida que as coisas vão se esclarecendo, e tudo vai ficando cada vez mais difícil ainda de aceitar. Seguindo essa técnica narrativa curiosa, é impossível não ficar estarrecido diante da revelação bombástica das cenas finais, mesmo que agora a tensão tenha se esvaído e a tela esteja em correta posição. Ou seja, o texto e a imagem vão se revezando na função de nos prender em uma trama que vai ficando mais complicada conforme é desvendada.
Fãs de carteirinha, filas quilométricas, convenções anuais e reapresentações constantes em mostras de cinema são apenas alguns dos resultados do sucesso desta produção. Foi um dos pioneiros a alcançar tamanho frenesi e serviu de inspiração para inúmeras adaptações para televisão, continuações e refilmagens. Nenhuma delas foi tão incisiva e significativa para o cenário cinematográfico e até mundial como foi a obra original. Além de ter servido também como precursor do nascimento do cinema contemporâneo americano, continua até hoje servindo de referência no gênero e mantém em torno de si uma aura de intocável que poucos conseguem construir.
Planeta dos Macacos, apesar de nos propor entretenimento, é um tipo de cinema que alça vôos maiores. Ele assume a função de denunciar, de expor, de cutucar e de refletir. Mais do que corriqueira diversão, sua mensagem é tão pertinente que o tempo não foi capaz de torná-la obsoleta. Talvez seja datado em seu visual, mas seu texto envelheceu sem perder o valor e pode muito bem ser aplicado ao mesmo governo americano, ao mesmo ser humano e à mesma irracionalidade. Se for verdade que a passagem dos anos é a maior prova de qualidade de uma ficção-científica, então estamos diante de um grande exemplar do gênero.
Resenha extraída do site:
Cineplayers
Trailer do novo filme:
Houve uma época para o cinema americano em que trabalhar com ficções-científicas não se tratava apenas de inventar histórias grandiosas ou jogar na tela efeitos especiais impactantes, embora isso também pudesse ocorrer. A origem desse gênero na literatura, por exemplo, visava algo muito maior do que apenas atrair um público sedento por teorias conspiratórias. A grande sacada na hora de criar uma trama em volta desse estilo era o poder ilimitado que o autor adquiria em um mundo onde ele mesmo podia inventar as regras. Afinal, gêneros como ficção-científica e fantasia permitem ao criador fazer o que bem entender sem se preocupar com a lógica da realidade e, mais importante de tudo, transmitir o que bem entender. No caso de diretores e roteiristas, ter esse poder era essencial na hora conseguir driblar a censura e expor em suas obras uma mensagem de impacto não apenas visual. Ciente disso, Franklin J. Schaffner e seu famoso Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, 1968) vieram não apenas para abalar o cinema no sentido puramente comercial, mas também para usar sua arte em prol de algo muito maior – criticar ferozmente o ser humano e a guerra.
Rodado em 1968 em plena Guerra Fria, Planeta dos Macacos tinha um objetivo bem claro para seus autores, mas não para o público em geral. Adaptado da obra homônima do francês Pierre Boulle, o roteiro foi quase que inteiramente montado a partir de idéias bem pesadas e um tanto fora de foco para a proposta do cinema que começava a emergir no fim da década de 1960. Os efeitos visuais, a ação e a inventividade ganhavam força das idéias propagadas pelas corridas armamentistas e espaciais, e agora para um filme fazer sucesso comercial era inteiramente necessário o uso desses recursos. Foi então que a ficção-científica ganhou um espaço diferente e maior entre as produções americanas. Saindo do terreno das premissas trash de monstros descontrolados e explosões nucleares (influências da Segunda Guerra), o gênero passava a se enveredar pelo espaço sideral e pelas guerras nas estrelas. Tudo era ainda muito novo e empolgante, e Planeta dos Macacos deu o tiro de largada para as idéias estourarem, influenciando uma onda de novos cineastas que viriam a usar e abusar delas (entre eles um tal de George Lucas).
O que ninguém conseguiu perceber em um primeiro momento foi a intenção por trás de tudo isso. Sim, havia muito efeito especial para agradar o público, mas sua força se encontrava em outros atributos. Não perdendo a oportunidade de simplesmente detonar a imagem de herói do governo americano, Schaffner alcançou um sucesso comercial enorme através de uma obra que ia contra tudo aquilo que era pregado pela política estadunidense. Debaixo do nariz de sua própria nação, ele criticava não apenas as guerras, mas também a irracionalidade que havia por trás delas no ser humano. Em um filme intitulado de Planeta dos Macacos, é a raça humana que ganha um destaque maior, e não à toa.
Mas o que há de tão feroz por trás de uma aparentemente comum diversão? Logo na sinopse podemos descobrir um primeiro indício. Tudo gira em torno de um grupo de astronautas que acaba aterrissando em um planeta desconhecido, no ano de 3978, habitado por macacos inteligentes que escravizam e fazem experimentos com seres da raça humana. Dos três tripulantes, apenas um consegue escapar das garras destes símios e agora tem a difícil missão de descobrir que lugar é aquele exatamente e que segredo está por trás de tudo aquilo.
Para começar, temos uma situação no mínimo estranha. Os animais sendo retratados como civilizados, enquanto o homem é mostrado como um bicho irracional a ser analisado é algo que nos faz pensar. Depois, temos a reação dos personagens terráqueos diante de uma tão bem estruturada sociedade, regida por símios de inteligência muito acima do comum. Antes da aterrissagem, o protagonista Taylor (Charlton Heston) já se mostra preocupado com sua própria raça – “acredito que em algum lugar do universo deve haver algo melhor que o homem”, diz ele – e a princípio fica pasmo com a disciplina e civilidade que encontra em novas terras. Que surpresa é quando percebe ser uma ameaça para aqueles primatas, que aparentemente escondem um segredo muito importante que pode ser desvendado por ele.
Os momentos de tensão são constantes, o que talvez realce a seriedade que se encontra na mensagem latente nas entrelinhas. Os ângulos pelos quais Schaffner posiciona sua câmera são tão assimétricos que acabam contribuindo para estabelecer uma sensação de perdição e caos no espectador, facilitando assim uma empatia com o protagonista igualmente confuso. Aos poucos o diretor vai endireitando sua câmera, na mesma medida que as coisas vão se esclarecendo, e tudo vai ficando cada vez mais difícil ainda de aceitar. Seguindo essa técnica narrativa curiosa, é impossível não ficar estarrecido diante da revelação bombástica das cenas finais, mesmo que agora a tensão tenha se esvaído e a tela esteja em correta posição. Ou seja, o texto e a imagem vão se revezando na função de nos prender em uma trama que vai ficando mais complicada conforme é desvendada.
Fãs de carteirinha, filas quilométricas, convenções anuais e reapresentações constantes em mostras de cinema são apenas alguns dos resultados do sucesso desta produção. Foi um dos pioneiros a alcançar tamanho frenesi e serviu de inspiração para inúmeras adaptações para televisão, continuações e refilmagens. Nenhuma delas foi tão incisiva e significativa para o cenário cinematográfico e até mundial como foi a obra original. Além de ter servido também como precursor do nascimento do cinema contemporâneo americano, continua até hoje servindo de referência no gênero e mantém em torno de si uma aura de intocável que poucos conseguem construir.
Planeta dos Macacos, apesar de nos propor entretenimento, é um tipo de cinema que alça vôos maiores. Ele assume a função de denunciar, de expor, de cutucar e de refletir. Mais do que corriqueira diversão, sua mensagem é tão pertinente que o tempo não foi capaz de torná-la obsoleta. Talvez seja datado em seu visual, mas seu texto envelheceu sem perder o valor e pode muito bem ser aplicado ao mesmo governo americano, ao mesmo ser humano e à mesma irracionalidade. Se for verdade que a passagem dos anos é a maior prova de qualidade de uma ficção-científica, então estamos diante de um grande exemplar do gênero.
Resenha extraída do site:
Cineplayers
Trailer do novo filme:
Marcadores:
ficção científica,
história contemporânea,
história do cinema,
macacos,
planeta dos macacos,
símios
Assinar:
Postagens (Atom)
























