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domingo, 30 de outubro de 2011

Indígenas correm riscos com instalação de Belo Monte, apontam especialistas

27/10/2011 - 15h16
Isabela Vieira*
Enviada Especial

Caxambu (MG) – Enquanto cerca de
600 manifestantes indígenas, ribeirinhos e ativistas ambientais ocupam o canteiro de obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e fecham a Rodovia Transamazônica, na altura do quilômetro 50, em Altamira (PA), para protestar contra a instalação do empreendimento, a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) afirmou hoje (27) que etnias indígenas estão em risco com a instalação da barragem na Bacia do Rio Xingu.
Durante debate no 35º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), a professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) Sônia Magalhães, que desde 2007 estuda comunidades afetadas, alerta que impactos ambientais não constam dos estudos sobre o empreendimento e denuncia que condicionantes para a instalação da usina como a desintrusão de invasores das terras indígenas não estão sendo cumpridas
“Por meio de modelos matemáticos e de engenharia, o consórcio [responsável pela obra] diz que o rio [Xingu] não corre o risco de secar. Não é o que os índios pensam. Pela sua experiência, os velhos estão seguros do contrário e não há modelo matemático que os convença do contrário”, disse. “Eles contam que na época de seca, com a diminuição da vazão do Xingu, peixes podiam ser retirados do rio já cozidos. Imagine como será com a diminuição da vazão”, questionou.

Integrante da Comissão de Assuntos Indígenas da ABA e pesquisadora do povo Xikrin do Rio Bacajá - afluente do Rio Xingu - há 20 anos, Cibele Cohn afirma que os índios não conseguem expor sua opinião ou se defender dos impactos das obras porque não foram informados adequadamente sobre o projeto. Segundo a professora da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), há menos de um mês, quando viram pela primeira vez fotos de outras barragens, houve reações inesperadas.
“Até esse ano, os Xikrin nunca tinham visto a foto de uma barragem”, afirmou ao relatar uma reunião organizadas pelas lideranças nas aldeias. “Em uma cena muito marcante, quando um dos velhos viu um paredão de uma barragem semelhante ao que será construído, ele disse: é muito pior do que eu estava esperando”, narrou a antropóloga. A Fundação Nacional do Índio (Funai), por outro lado, informa que promoveu 38 reuniões e quatro audiências públicas nas aldeias.

Acolhendo as denúncias dos índios, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, braço da Organização dos Estados Americanos (OEA), também não considerou as consultas da Funai adequadas. Em abril, por meio de medida cautelar, determinou que o Brasil interrompesse a instalação da usina até que as consultas fossem refeitas de forma “livre, informativa, de boa fé” e em língua indígena, “com o objetivo de chegar a um acordo” com as sete etnias afetadas. As consulta também são alvo de ações judiciais no Brasil.

Para cobrar a paralisação das obras da usina até o cumprimentos das condicionantes estabelecidas para a instalação da hidrelétrica, povos indígenas do Xingu fazem uma grande manifestação em Altamira hoje (27), de acordo com a liderança  do povo Arara, da aldeia Terrã-Wangã, Josinei Gonçalves, que participou do debate. Ele contou que as comunidades estão “assombradas” com os impactos e querem negociar as mitigações diretamente com a Presidência da República.

“São três pontos principais: a diminuição da vazão de rios que não nos permitirá, principalmente, chegar a Altamira, onde estão os serviços públicos e onde vendemos farinha, a diminuição dos peixes e o desmatamento, além dos conflitos por terra”, destacou Josinei que, assim como o cacique de sua aldeia, foi ameaçado de morte por colonos que invadiram terras indígenas atraídos pela obra. De acordo com o indígena, sem “conversas” não há prazo para  fim da ocupação.

Em 35 anos de encontros nacionais da Anpocs, esta foi a primeira vez que a organização convidou um representante da sociedade organizada para participar de uma discussão.

Extraído do site da Agência Brasil.

Movimento Ocupa Sampa: “A Veja não nos representa”

Extraído do Blog Lamparina Urbana 


O grupo que ocupa o Vale do Anhangabaú desde o último dia 15 de outubro para se manifestar contra o sistema político-econômico vigente recebeu com indignação a matéria de capa da edição de 26 de outubro da revista Veja. A matéria “Dez motivos para se indignar com a corrupção” demonstra mais uma vez a tendência conservadora do conselho editorial do grupo Abril, e sua prática de manipulação da informação pelo método de omissão e ênfase. A manipulação de símbolos é flagrante, por exemplo com o uso descontextualizado da imagem da máscara de Guido Fawkes, que se tornou símbolo dos levantes anticapitalistas no mundo todo, visando canalizar a insatisfação dos 99% da população para as pautas que interessam ao privilegiado grupo econômico da qual a publicação é porta-voz: o empresariado, sobretudo paulista.

É inegável que os movimentos autônomos que convergem em acampadas em cidades como Belém, Salvador, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo, em consonância com os levantes internacionais, condenam qualquer forma de corrupção. Entretanto aquilo contra o qual lutamos é uma doença muito maior, a corrupção é apenas um de seus desagradáveis sintomas (ver Manifesto da ocupação paulista, em anexo). A revista Veja usa suas páginas para atacar o Governo Federal e fazer “oposição” de Direita. Combater a corrupção como se fosse causa e não consequência é alimentar o mal ou, para dizer o mínimo, enxugar gelo. O sistema político vigente, as regras do jogo em si, é que propiciam, senão incentivam práticas de corrupção.
Mas para além do desvio de dinheiro público por debaixo dos panos, existe outras formas de alocação de recursos públicos para interesses privados, como no caso da construção da usina de Belo Monte, que terá 80% do seu custo de R$ 30 Bilhões bancado com dinheiro público, mesmo que os únicos beneficiados com a obra sejam as empreiteiras e as empresas estrangeiras que exploram o alumínio na região Norte. Apenas 10% desse alumínio fica no Brasil; quanto aos lucros, a maior parte fica nas mãos dessas corporações transnacionais e de uma pequena elite política brasileira. Sobram para os brasileiros apenas a conta para pagar, e o sofrimento causado pelos impactos sociais e ambientais.

Outro modo de apropriação do Estado pelo interesse particular é a aprovação de leis como o novo Código Florestal, que tem sido tocado como o rolo compressor da bancada ruralista. O prejuízo ambiental será de todos, uma vez que todos terão menos oxigênio, nascentes de rios e biodiversidade. Enquanto os exportadores de soja, milho e cana, mais dinheiro em suas contas.
As acampadas anticapitalistas como a ocupação do Viaduto do Chá apelidada provisóriamente como Acampa Sampa contestam o sistema de Democracia Representativa, por entender que o povo tem o direito de participar diretamente da discussão e decisão políticas. Constatamos que os políticos não nos representam. Uma vez eleitos, representam apenas a seus próprios interesses e o daqueles que financiam suas campanhas.

Entretanto é importante notar que o que Veja propõe não é uma transformação política que impeça tais práticas, mas ao contrário, gostaria de ver os magnatas da indústria e comércio, marcadamente associadas a PSDB e DEM no comando do Estado para arbitrar tanto quanto as elites agrárias às quais o atual governo petista se aliou.

Essa postura é evidenciada pelo fato de que a revista dá voz à Fiesp, mas não entrevistou sequer um dos participantes dos movimentos de “indignados” das ocupações públicas. A revista, que dá ênfase à corrupção no atual governo federal, não retoma os escândalos dos governos passados e apresenta propostas extremamente neoliberais como remédio para a corrupção. Veja chega colocar no mesmo balaio dos corruptos, também aposentados, pensionistas e pessoas que recebem bolsas do governo. O que Veja quer é defender a diminuição de gastos sociais e a demissão de miliares de funcionários públicos e diminuir a carga tributária paga por seus patrocinadores.
Veja tenta confundir o leitor, fazendo parecer que a sua luta específica contra o Governo Dilma e a favor dos empresários é a luta dos acampamentos de indignados. A Veja não nos representa. Nossa luta não é simplesmente contra o governo Dilma. Nossa luta é contra o Capital e os governos de um modo geral. Queremos a mudança do sistema e a transição para uma sociedade em que todos tenham vez e voz. Nossa luta é também contra os governos estaduais e municipais do bloco político sustentado pelo grupo Abril.

Nossa luta por Democracia Real é também uma luta contra empresas de comunicação manipuladoras do processo político, como a própria Veja. Enquanto houver essa democracia indireta e o capitalismo selvagem, haverá corrupção.

Não queremos um estado reduzido para ver o poder ainda mais concentrado nas mãos de empresários. Queremos o poder nas mãos do povo, e o povo plenamente livre, decidindo junto os destinos de suas comunidades. É por isso que não concordamos com qualquer reforma política que sirva para manter e aumentar o poder daqueles que já concentram poder, queremos a transformação completa do sistema.

Discordamos também quando a revista afirma que o Brasil não está em uma situação tão grave quanto a dos países europeus que enfrentam a crise do capital. O que acontece é que o Brasil se acostumou com a crise e com as suas gritantes contradições. Basta olhar a situação dos sem-teto, dos sem-hospital, dos sem-escola, dos sem voz em nosso país para ver que a situação do Brasil que cresce, cresce para poucos. Chegamos a essa situação não simplesmente por causa da corrupção, mas pela exploração do homem pelo homem que já dura mais de cinco séculos.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Larry Crowne e a crise americana

Um aparente filme singelo de comédia romântica capitaniado pelos ícones americanos Julia Roberts e Tom Hanks me surpreendeu bastante. Uma esposa cansada do marido viciado em internet e um sujeito que mantém um emprego por anos sem preocupação em ampliar seus estudos formais, ou seja, frequentar uma faculdade, são unidos por situações de crise.

Um dos primeiros filmes que vejo tentando lidar com a atual decadência do Império Americanos. Larry Crowne (Tom Hanks), despedido da loja de dapartamento em que trabalhava a anos, sem nenhum tipo de ascensão na carreira, se depara com uma nova realidade. "É preciso se qualificar", como diriam os empresários capitalistas exploradores de plantão.

É por esse motivo que Crowne, vai acabar "caindo" na aula de oratória ministrada pela professora Mercedes Tainot, papel de Julia Roberts. Como toda boa comédia romântica, os dois se envolvem por meio de situações ao acaso, mas o que vale observar no filme é exatamente o elemento da crise sempre presente, parece que não há mais como escodê-la. O jeito é trocar o carrão Toyota pela Lambreta, como faz Larry gerando as situações mais engraçadas do filme.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Entenda o que está acontecendo no Egito 29/01/2011


Revolta em países árabes evidencia surgimento de forças políticas locais, dizem especialistas

A crescente onda de revoltas populares em países árabes, reivindicando melhoria nas condições de vida e maior liberdade política, pode se refletir no enfraquecimento da influência das potências ocidentais e no surgimento de forças políticas locais, dizem especialistas. Há agitações populares na Tunísia e Egito, bem como na Argélia, Jordânia e Marrocos.
As perspectivas de novos levantes contra governos ditatorias começam a traçar um outro futuro nos países árabes. Depois de a Tunísia ter as ruas tomadas por populares que lograram a derrubada de Zine El Abidine Ben Ali – no poder há 23 anos –, agora foi a vez de o Egito enfrentar violentos protestos pela saída de Hosni Mubarack, que já tem mais de 30 anos à frente do país.


Mesmo constatando que a realidade política e social dos países com iminentes movimentos sociais seja distinta, os especialistas concordam que há um novo elemento que forma um cenário semelhante: a insatisfação da sociedade com as condições de vida, de emprego, do preço dos alimentos e, ainda mais evidente, com a durabilidade dos governos autoritários.


Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), acredita que há o surgimento de um novo perfil entre as forças que controlam os países árabes. Ele aponta o perfil como uma oposição à dualidade dos regimes, que tem, de um lado, as ditaduras e, de outro, os radicais – associado por países como os Estados Unidos ao terrorismo. Nasser acredita que estas forças podem não chegar ao poder, mas evidenciam uma tendência importante.
“Essa tendência no Ocidente chamamos de classe média. Aquela que luta pelo fim do desemprego e por liberdade política, mas ao mesmo tempo obtém informações pelos meio de comunicação e redes sociais na internet. Aí está um novo perfil”, explica Nasser.
Assim como ocorreu na Tunísia, os egípcios se manifestaram a favor das revoltas pelas mídias sociais. Mensagens que circularam no Twitter e no Facebook – como “Ontem todos éramos tunisianos, hoje todos somos egípcios e amanhã todos seremos livres” – espalharam-se entre internautas que manifestavam insatisfação. Na terça-feira (25), páginas de algumas das redes sociais já encontravam-se inacessíveis no Egito.



Para Cristina Soreanu Pecequilo, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o uso dessas ferramentas pelos movimentos democráticos é importante para que se comece a criar uma cultura de troca de ideias. Porém, ela lamenta que em alguns países com regime ainda mais fechado a maioria da população não tenha acesso a essas ferramentas e, portanto, fica sem ter conhecimento sobre as manifestações.
Para a professora, há um enfraquecimento das potências ocidentais sobre a política de países árabes. As evidências partem da constatação de que a posição adotada pelos governos dos Estados Unidos e da União Europeia não seja mais visto como regra. Os exemplos citados por Cristina Pecequilo são a relação da França com Argélia e Tunísia, e a dos Estados Unidos com o Egito.
“Para os Estados Unidos é mais seguro o Egito com um governo moderado no poder do que um Egito que de repente tenha eleições livres ou que tenha no poder um grupo fundamentalista islâmico. Embora eles (EUA) tenham discurso pró-democracia, o interesse é praticar sua política internacional”, critica Cristina Pecequilo.


Na terça-feira (25), o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em seu discurso ao Estado da União afirmou que os norte-americanos estão ao lado do povo tunisiano, “onde a vontade do povo se provou mais poderosa que as ordens de  um ditador”. No entanto, Obama não fez  referência ao Egito, onde as manifestações também tomaram as ruas contra o ditador Mubarak, que é aliado de Washington.
Para Nasser, a eventual troca de regime em Cairo é muito mais significativa que em Túnes, pelo fato de o Egito ser considerado pelos Estados Unidos como uma peça-chave da região. “Por ser um país poderoso militarmente e que tem diálogo com Israel, a troca de governo no Egito é mais improvável. (O governo atual) vai contar com apoio internacional, já sinalizado por Obama, que não foi muito entusiasta dos movimentos, por apoiar governos como do Egito e de outros países há muito tempo”, ressaltou o professor.


Extraído da revista Carta Capital.

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